segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A comemoração silenciosa

E o Palmeiras foi campeão do Campeonato Paulista de 2020! Em cima do maior rival, tirando um pouco o gosto amargo da injustiça que aconteceu em 2018, no Allianz Parque. É um sentimento estranhíssimo, com um misto de alegria e culpa, por me sentir feliz com algo que sempre amei pela vida inteira no dia em que atingimos a triste marca de cem mil mortos no Brasil por conta dessa pandemia maldita. Foi um título silencioso, sombrio e estranho, considerando todo o panorama atual, mas que ao mesmo tempo teve contornos belos, com a base subindo forte para o profissional, com aquela aura soberba do ano passado indo embora, com o passando reencontrando o presente na forma do técnico Vanderlei Luxemburgo e com certos requintes de crueldade com quem se propôs a assistir esses jogos.

Vale dizer que o campeonato não começou agora. Antes da pandemia explodir, tinha comentado por alto com alguns amigos que acreditava que ao menos o Paulistão iriamos abocanhar, não passaríamos em branco após um 2019 bem errático em todos os aspectos. Por incrível que pareça, nesse mesmo campeonato marquei presença em dois singelos jogos (Guarani e Ferroviária). Dois jogos bem sem sal, mas que hoje guardo com um certo carinho, pois foram os últimos jogos em que estive em um dos lugares que mais gosto: a arquibancada. Em campo, algumas diferenças já eram visíveis em relação aos anos anteriores, com os garotos da base, historicamente deixados de lado em detrimento de compras um tanto quanto duvidosas, assumiram seus papeis como se conhecessem o Palmeiras há anos. Especialmente Patrick de Paula e Gabriel Menino. As raras contratações desse ano também empolgaram, como Rony (embora haja controvérsias entre alguns amigos) e Viña (esse, mais unânime entre os palmeirenses que conheço). A mescla com jogadores já experientes ou com tempo de casa tinha tudo para dar liga e estávamos caminhando relativamente bem tanto no Paulista, quanto na Libertadores.

E veio a pandemia. Chegou com força. Nos trouxe medo, isolamento, morte, desolação. Vi amigos sofrendo com isso, seja com internação própria, seja com perda de entes queridos. Tolhemos muito daquilo que vivemos, que gostamos. E não foi embora. O medo permanece presente, seja por nós, seja por todos que amamos. Destruiu nosso psicológico, afetou nosso espírito de forma bem negativa. Os números são assustadores e às vezes acho que não arranhamos a superfície do problema. Hoje, nos apegamos com força nas notícias sobre eficácias de vacinas para ver se temos alguma perspectiva no horizonte para que possamos recuperar um pouco do que gostávamos da nossa vida. É um ambiente bem desolador e nisso tudo, o futebol paralisou por meses, não apenas no Brasil, como no mundo inteiro (exceto Belarus, mas não vou tentar entender o que rolou por lá). As notícias sobre os times se resumiam a campeonatos de videogame, treinos caseiros e reprises de jogos históricos de outrora. Não conseguia acompanhar nada disso, pois só de lembrar de momento maravilhosos como torcedor (que felizmente foram muitos), parecia que a situação piorava.

Nisso tudo, o Campeonato Paulista, assim como as coisas até a primeira metade de março, era um passado distante. Por mim, poderia terminar do jeito que estava. Era contra a volta nesse momento. Internamente, me perguntava se conseguiria assistir aos jogos ciente de tudo o que ainda está acontecendo ao nosso redor.

Mas foi liberado, aparentemente os protocolos foram seguidos e eis que na metade de julho o campeonato retorna com um clássico. Palmeiras x Corinthians, em um Itaquerão completamente vazio. Foi esquisito ver um clássico completamente vazio, sem estar perto dos amigos ou na arquibancada em si. Os jogadores, completamente sem ritmo, a transmissão nos lembrando da gravidade do problema que estamos vivendo. Do mesmo jeito que era contra a volta do futebol nesse momento, também sentia falta de ver o Palmeiras em campo e discutir coisas com os amigos que variasse um pouco das mazelas da pandemia. Para nós, o futebol é mais do que um escape, às vezes é um elo que une. Não sou de participar de grupos de torcedores, estou apenas em um, onde há anos transcendemos futebol, mas que sempre nos lembramos o que nos uniu um dia. E nesse dia voltamos a falar um pouco de futebol como antes. Ainda me sentia culpado por estar acompanhando e discutindo isso em uma época tão negativa, mas coloquei a camisa do Palmeiras e vi a partida, concentrado como sempre. Cornetando como sempre também, inclusive por perder dos maiores rivais quando eles estavam prestes a serem eliminados. Os trouxemos de volta para o jogo.

Aos poucos fui refletindo minha relação com o futebol em pleno período de pandemia. Mesmo sendo contra o retorno do futebol como um todo, ver o Palmeiras vencer e avançando de fase era um alento pra mim e sentia que era o mesmo para muitos outros palmeirenses. Mas a comemoração foi completamente silenciosa até às semifinais. Discreta, sem mesmo gritar um gol em casa, como normalmente faria nessas situações.

Se tem algo que me deixa muito feliz nesse título, é ver como a base veio forte. Ver jogadores como Gabriel Menino e, especialmente, Patrick de Paula cravando seus nomes na história do Palmeiras, me faz abrir um largo sorriso, independentemente da situação. Ambos foram os principais nomes para que pudéssemos chegar na decisão. E pela primeira vez desde março berrei um "gol" bem gritado, com o chute certeiro de Patrick de Paula contra a Ponte Preta. Estávamos na final e reencontraríamos o Corinthians. O mesmo que não eliminamos na volta dos jogos. O mesmo de 2018, em uma final que até hoje não conseguimos engolir.

Eis que a decisão me trouxe de volta algo que não tinha há tempos: ansiedade pré-jogo. O intervalo entre as partidas foi muito menor do que o costume por razões de calendário, isso ajudou a mitigar um pouco essa ansiedade, mas queria vencê-los. Vencer um torneio é bom, em cima do maior rival é algo para se gravar em pedra. Dois encontros: quarta (5) e sábado (8). Iríamos decidir em casa, sem ninguém a não ser a torcida silenciosa de seus lares. Nos grupo de palmeirenses no WhatsApp, todos igualmente ansiosos. Em conversas avulsas com alguns outros palmeirenses, idem. O sentimento era unânime: todos cientes de todos os problemas, mas sabendo que ainda era uma final. Ainda era um Palmeiras x Corinthians e ainda desperta o torcedor que nunca deixou de existir entre nós. Mesmo nas horas mais escuras.

O silêncio se deu também no clique das redes do primeiro jogo. Após uma partida bem sem sal, com um zero a zero bem entediante, pra dizer o mínimo, fomos para o segundo jogo no sábado, em um Allianz Parque fechado. De sábado não passava. Era o tira-teima.

Enfim, o clima de final se fez presente, ainda que por frações do que estamos realmente acostumados. Ligação por vídeo e trocas de mensagens não passam nem perto da estar na rua sentindo aquela aura de decisão de campeonato, seja para ver no estádio ou no bar, mas foi um alento trocar umas palavras com amigos queridos antes da partida. O jogo aconteceu no dia em que chegamos à triste marca de cem mil mortos por conta desse vírus maldito. Senti meu estômago revirar quando vi os números. Me senti culpado demais por tentar voltar meu foco para a final do campeonato em uma hora tão difícil quanto essa. Ao mesmo tempo, tentei racionalizar e pensei que uma comemoração dessas seria um alento para alguns palmeirenses que estavam acompanhando. Seria a consagração de uma molecada que cresceram de forma maravilhosa. Seria o reencontro do Luxa com um título do Palmeiras após doze anos. Os números martelavam forte na minha cabeça, mas ao mesmo tempo queria ver o Palmeiras campeão, já que estavam de volta.

Campeões!

Deu uma dor no coração ver o estádio vazio, com som artificial da torcida. Em todas as vezes. Mas por hora, não tinha outro jeito a não ser ver todas aquelas faixas e o silêncio de quem deveria estar ali para empurrar. Com a bola rolando, após um primeiro tempo tão ruim quanto o jogo anterior, o Palmeiras voltou com tudo para o segundo tempo e abriu o placar logo de cara, com Luiz Adriano. Pulei bastante na hora, talvez um pouco menos em silêncio do que em momentos anteriores. O título estava mais perto do que nunca! 

E tinha tudo para ser nosso em tempo normal. Apesar da diferença mínima, os rivais não assustavam em suas investidas e estávamos mais propensos a marcar o segundo do que tomar. E foi assim até os 49 minutos e 50 segundos. Por alguma razão, Gustavo Gomez tomou uma decisão bem errada e cometeu um pênalti no último lance do jogo. Não era possível. Entrei em estado de descrédito com aquilo que estava presenciando. Não era possível! 2018 estava se repetindo? 

Jô converteu a penalidade (por pouco não perdeu) e fomos para a decisão por pênaltis. De novo. Igual 2018. 

Na decisão de 2018, estava lá, na arquibancada. Desta vez estava no sofá, incrédulo e pensando "isso escapou das nossas mãos de maneira inacreditável". Nosso histórico recente de penais não ajudava nem um pouco. Mas ai o Weverton defendeu a primeira cobrança e voltei a acreditar novamente. Mas ai lembrei o porquê de estar incrédulo: Bruno Henrique errou a cobrança dele. Nosso arqueiro ainda defendeu mais uma e os cobradores fizeram todos os outros, a despeito de termos ao menos duas cobranças extremamente mal batidas. O fato é que chegamos ao último pênalti podendo ser campeões, com Patrick de Paula na cobrança. Ele merecia esse título, ele é a personificação do termo "a base vem forte". E veio! Foi dele a cobrança campeã. Palmeiras campeão paulista pela 23ª vez. A primeira desde 2008. Eu pulei pela sala feliz da vida com essa conquista. Liguei para alguns amigos palmeirenses mais próximos para gritar um belo "é campeão", só para ter um mínimo de gosto de ao menos emular esses momentos.

Mas foi uma comemoração silenciosa. Não teve a pirotecnia de conquistas recentes anteriores, abraços, cervejas na rua, pulando por horas. O momento que vivemos infelizmente nos impediu de pensar nisso. Os números que estamos vendo (e que infelizmente não para de crescer) me faz não ter vontade de comemorar qualquer vitória que seja, mesmo em âmbito estritamente pessoal. Mas o momento faz com que cada pequena vitória seja saboreada, seja no abraço com a pessoa que ama, seja em uma caminhada ao sol com máscara, seja com entregas bem vistas no trabalho, seja com seu time campeão, mesmo em um período muito difícil para a humanidade. Só espero que esse período sombrio que vivemos acabe logo, para que as próximas comemorações de título do Palmeiras sejam barulhentas do jeito que realmente devem ser, especialmente se for em cima de rival.

Meus sentimentos para cada uma das famílias dos mais de cem mil mortos nessa pandemia. Infelizmente já presenciei amigos e pessoas próximas sofrendo perdas nesse período. Esse texto foi escrito para que eu tente me apegar em algumas coisas boas que às vezes acontecem, como uma paixão antiga.

sábado, 9 de maio de 2020

O paradoxo do "inútil"


"No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para que podem servir a música, a literatura ou a arte"

O trecho acima é do livro "A utilidade do inútil: um manifesto", escrito por Nuccio Ordine. Terminei de ler esse livro em fevereiro, período em que já vivíamos com uma séria ameaça de pandemia, e desde essa época vieram diversas reflexões sobre a dualidade entre útil e inútil em tudo o que faço, seja na vida pessoal quanto na profissional. Em um mundo que ainda valoriza muito o utilitarismo, o "ter" ao invés do "ser" e ostentação de posses, sempre achei que o mundo ficava muito mais vivo com as inúmeras coisas ditas "inúteis" em um espectro utilitarista. Uma obra de arte talvez não tenha a mesma utilidade de um prego, mas certamente ela é importante para deixar a passagem de um ser humano registrada na Terra, entender contextos históricos e construir diversas outras coisas em cima disso, criando novas referências. Fiquei pensando como o mundo seria muito pior sem música, como melodias, sejam elas quais forem, conectam pessoas de modo que um martelo não faz. Mais do que tudo, pensei muito sobre como não existem coisas "inúteis" de fato e como as artes, a filosofia, o aprendizado por algo sem um fim propriamente voltado para a carreira (tipo, ainda quero aprender violino apenas por gostar absurdamente do instrumento) e a natureza da curiosidade humana deveriam ser mais bem valorizadas do que são. O dito "inútil" atinge nossos sentimentos, nos torna mais humanos e é isso que nos separa das máquinas.

O autor passa uma mensagem de resistência em um mundo voltado para ego, vidas filtradas pelas lentes das redes sociais e batalhas ferozes por lucratividade sem qualquer tipo de escrúpulo, mas vou além ao dizer que nada é inútil. Tudo tem uma razão de existir, independente de qualquer expectativa de benefício. Se não para mim, para outra pessoa.

Menos de um mês após terminar o livro (que aliás, foi um grande companheiro das viagens de metrô em fevereiro), essa pandemia maldita que estamos vivenciando colocou o mundo inteiro de joelhos. Em tempos em que a recomendação máxima é ficar em casa por conta de uma praga mortal que não víamos há um século, mais do que nunca vemos a importância da melodia, do poema, do quadro e de todas as formas de artes possíveis. De fato, sem as coisas ditas "inúteis" dentro de um mundo utilitarista, provavelmente já teria enlouquecido nesse período tenebroso.

Em conversas recentes com minha terapeuta, discutimos muito essas mudanças repentinas advindas da pandemia (como não podia deixar de ser) e o tema “liberdade” foi provavelmente o mais falado nas últimas semanas. Como eu poderia “compensar” (e haja ênfase nas aspas!) a limitação de um dos meus valores mais importantes e deixar o que mais gosto de fazer, que é sair por aí e coletar o máximo de referências externas possíveis de tudo o que acontece no mundo? Nisso, parei para observar como a mente humana também é brilhante em tudo que envolve criatividade e cultura, pois pensei nos mais diversos livros, nas séries, filmes (cada vez mais a mão com o crescimento do streaming), podcasts, as inúmeras playlists musicais que tenho, videogames, suas criações de mundos novos e histórias impressionantes que te fazem pensar “como diabos fizeram isso?”, a própria escrita e a vontade de produzir coisas. Mesmo em momentos em que a letargia falava mais alto e tudo o que buscava era um “confort food” em alguma série para assistir antes de dormir, ainda estamos falando de algo que envolveu produção artística e criação de mundos fantasiosos.

"O mais útil é o inútil. Mas experienciar o inútil é o mais difícil para o homem moderno. O 'útil' é compreendido aqui como o que pode ser praticamente utilizado, diretamente para fins técnicos, para aquilo que causa algum efeito, algo que eu possa administrar e com o que eu possa produzir."   

A sentença acima me faz pensar o tanto de vezes em que me senti culpado por não produzir ou aprender algo novo em meu tempo livre. Inclusive, há alguns anos escrevi sobre como produzir coisas estando no metrô ou transporte público, mas não demorou muito para perceber que tinha dias que simplesmente não queria produzir nada nos meus trajetos. Agora, em tempos em que nosso psicológico está sendo testado diariamente com a barragem de más notícias que chegam para todos, qualquer resquício de culpa por "não produzir" em períodos de ócio se esvaiu. 

Eu não me sinto mais produtivo para o mundo quando estou vendo filmes, séries ou jogando videogames, mesmo que às vezes tire muitas referências de tudo isso para as coisas que faço.  Nada do que faço enquanto entretenimento visa lucro ou mesmo um legado para ser deixado, mas que bom que existe um jogo como Shadow of the Colossus, um mundo fictício e beirando o artístico em que eu possa derrubar gigantes apenas com uma espada ou flechas, sem pensar muito em soluções de negócios, mas sim na beleza dos cenários ou da trilha sonora. Ainda mais maravilhoso ver uma seleção de séries em que eu possa me distrair, que te fazem esquecer um pouco que há um vírus assassino a solta por aí. Que maravilha que existam livros de ficção que estimulem a imaginação e te faça imergir em mundos completamente novos apenas com a força de nossos pensamentos.

"O homem moderno, que não tem tempo para se dedicar a coisas inúteis, está condenado a se tornar uma máquina sem alma."

A mente é uma das coisas mais valiosas que temos, ainda mais em tempos como esses. Nenhum conhecimento adquirido é inútil. Toda experiência vivida é importante para nossas vidas. Sem essas mais variadas criações, de várias pessoas, de vários momentos no tempo, certamente teríamos sucumbido.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Dez minutos no sol

Cada dia que passa sinto que sofremos um golpe diferente. Toda manhã acordo pensando em abrir algum portal de notícia para ver se tem alguma notícia animadora, sem sucesso até o momento. A condição mental vai ficando cada vez mais deteriorada e as coisas parecem perder sentido nesse período. Hoje, em particular, estou me sentindo pior do que estive nesse último mês. Talvez pior do que estive desde julho do ano passado, quando tive que lidar com lutos pesados em meio a ambientes pouco amigáveis. E a sensação é que qualquer movimento (ou falta dele) que faça, possa implodir ainda mais as poucas situações ainda "normais" que restaram. Cada vez mais, vemos como nosso pequeno mundinho é frágil como um castelo de cartas.

Nunca imaginei que iria "comemorar" em ficar dez minutos no sol, no térreo de onde moro. Sentado, com uma roupa suja, de máscara, olhando fixamente pro céu e deixando a luz natural perpetrar meu organismo e trazer um pouco de serotonina. Um tanto quanto necessário para tentar trazer um pouco mais da lucidez de volta para poder raciocinar as coisas com calma, pensar em estratégias de como passar esses dias sem perder mais do que já estou perdendo.

Tá difícil e só me pergunto quando sairemos dessa.

domingo, 5 de abril de 2020

Quando a hora chegar

A sensação que tenho é que cada texto que escrevo pode ser o último, tamanha imprevisibilidade da situação. Desde as civilizações mais antigas, com sistemas rudimentares de hieróglifos, passando pela consolidação do alfabeto, os registros em papiros, papeis, livros, e-books, blogs, redes sociais e qualquer outro meio que possa pensar, a escrita é fundamental para que possamos contar nossa história, mostrar nosso registro na terra. Talvez ainda mais eterno que pinturas, que necessitam de reparação, ou mesmo acervos musicais, que passam por restaurações, remasterizações e processos para que superem o teste do tempo. Mesmo trabalhando com design, não há nada que ache mais bonito, claro ou eterno do que a escrita. As palavras dão vida para todas as experiências que vivemos, mantém viva a nossa história para além da nossa existência.

O que um cara de 32 anos, com uma vida social relativamente moderada, cuja paixão é música (embora não saiba cantar e mal toca instrumentos) e viagens (das mais curtas até as mais longas), que optou por dar enfoque na carreira ao invés de comprar brigas sem sentido na internet, que tem uma aversão profunda ao culto à personalidade, tem para acrescentar para um possível postmortem que as pessoas que ficaram possam ver? Nada de muito especial. Era um garoto zoado no colégio, respeitado como um igual no bairro onde morava (por isso que sempre levo a Vila Silvia com um certo carinho na minha trajetória) e que teve diversos tropeços ao longo da vida, nas coisas que as fotos e stories de Instagram não mostram. Apenas optei por tentar viver uma vida de descobertas, de tentar conhecer coisas novas e de seguir meu coração para as coisas que realmente importavam para mim, tentando fazer o melhor para as pessoas que amo no processo. Talvez não seja nada, mas para alguém sei que pode ser o mundo. As palavras têm um poder que não sabemos explicar. Podem mudar vidas.

E foram muitas as palavras ao longo dos anos que me fizeram melhorar enquanto ser humano. Palavras que finalmente fizeram com que eu me sentisse bem comigo mesmo, ainda que estivesse vivendo os piores momentos da vida (leia-se 2019) e que me mantiveram não apenas de pé, mas triunfando nos meses que precederam essa terrível doença que vem aniquilando o planeta e a vida como um todo.

A questão é que independente do que aconteça, não temos o menor controle do curso do mundo. Hoje, ainda estou trabalhando, tentando produzir e com uma ligeira esperança de possíveis dias melhores no horizonte. Mas vendo as notícias, as esperanças se tornam mais vazias. Será que ainda vou fazer o que mais gosto, que é me movimentar para os lugares, independente da situação? Mesmo que tudo isso passe, fica essa ciência de que as coisas são imprevisíveis. Pensando bem, isso é um tanto libertador e me faz pensar que, não importa se eu for embora amanhã, daqui a duas semanas ou na minha velhice. O que realmente importa é fazermos o nosso melhor, dentro das nossas possibilidades, para que o mundo seja um lugar realmente habitável e cheio de possibilidades, como sempre gostei de ver. Como me impulsionou desde os tempos de moleque, na Vila Silvia, ao pedir um globo terrestre ao invés de um carrinho. Ao ficar feliz ao andar de carro até a Zona Sul da cidade porque era puramente diferente e um lugar novo. Como depois de adulto, em que construí possibilidades de viajar e estar em locais diferentes. Como na minha própria rotina (que agora inexiste), em que fico encantado ao conhecer um lugar novo dentro da minha própria cidade.

Na verdade, me sinto privilegiado por estar escrevendo isso. Sei de moleques da Vila Silvia que jogaram bola comigo na rua por anos que não tiveram as mesmas oportunidades, embora sei que tenham se tornado homens de fibra e verdadeiros lutadores. Sei de amigos do colégio, que tiveram mais privilégio do que tive, que também não tiveram essas oportunidades por conta de algumas escolhas ao longo da vida. Sei que outras pessoas pavimentaram caminhos menos equivocados e tiveram ainda mais chances de ver coisas maravilhosas nesse mundo. No fim, tudo se resume aos caminhos que construímos ao longo da vida. Cada história pessoal é um compêndio de chegadas e despedidas a todo instante — os últimos três anos foram pródigos em me ensinar essa lição. Infelizmente, para alguns, o caminho é muito mais difícil, tortuoso e às vezes um precipício coloca fim na história. E é aí que vemos o quanto perdemos tempo com conflitos sem sentido, com coisas bem superficiais que apenas nos atrasam e em como perdemos chances atrás de chances de fazer coisas boas.

Como disse, não tenho controle das coisas que acontecem, mas tenho do que posso sentir, escrever e agir. Ao longo da vida tive muitos arrependimentos, mas sei que também fiz muita coisa boa dentro das minhas possibilidades. Por isso, se este for definitivo, que se lembrem de mim como alguém que não mede esforços para seguir o coração e tentar trazer uma leveza para as coisas, não importando o quão sombrio o mundo esteja.

Há mais ou menos três anos perdemos o Chester Bennington, um dos maiores vocalistas do rock contemporâneo por conta da depressão. Mas dez anos antes, ele deixou um refrão que ficou na minha cabeça nesses tempos de reflexão, para quando a hora chegar, materializado na música Leave it All the Rest, do Linkin Park. Encerro com ele:

“When my time comes
Forget the wrong that I’ve done
Help me leave behind some reasons to be missed
And don’t resent me
And when you’re feeling empty
Keep me in your memory
Leave out all the rest
Leave out all the rest”

sábado, 4 de abril de 2020

O mundo que deixou de existir

Já tem três semanas que estou completamente confinado em casa, com duas exceções para repor o estoque de comida no supermercado. Estou trabalhando de casa, com a mesma intensidade ou até mais do que estava acostumado (o que não era pouca coisa) e isso tem ajudado bastante a tentar manter um mínimo de normalidade para não enlouquecer de vez. E graças à Deus que estou trabalhando e ainda dentro de uma rotina corporativa frequente, com entrega de projetos grandes - na atual conjuntura, isso é um privilégio e tanto. Mas a sensação é que, em pouquíssimo tempo, o mundo virou de ponta cabeça e nunca mais será o mesmo.

Nos meses que precederam essa quarentena, minha vida estava caminhando em um mar relativamente calmo, com mais notícias boas do que ruins. De fato, 2020 se desenhava muito mais promissor do que o ano anterior. Não faz nem dois meses que voltei de uma viagem memorável para a Espanha (embora já estivesse cristalino de que a crise sanitária seria bem séria, com casos bombando da China), seguida por outra para Monte Verde, um aniversário inesquecível, um carnaval que não odiei (o que é muita coisa) e um show do Maroon 5. E quase tudo isso com a companhia de uma pessoa mais do que especial e que me tirou das trevas em que estava atracado durante boa parte de 2019. E tinha planos, como finalmente tirar minha carteira de motorista, cursos mais específicos para a minha área, outras viagens e crescimento de modo geral após a série de porradas tomadas no ano anterior.

Três semanas. Só isso para ver o mundo implodir e sem perspectiva de melhora. A esperança se tornou incerteza. A calmaria se tornou irritação. A cautela se tornou paranoia. Atividades corriqueiras e que funcionavam meio que no piloto automático se tornaram tensas, carregando uma dose extra de medo, como uma simples compra de supermercado ou encontrar com a namorada. E isso é só o meu mundo pequeno e particular. Se saio da bolha, vejo que a situação é muito mais dramática em diversos campos, como a economia entrando em colapso, pessoas sendo demitidas sem saber para onde ir, famílias perdendo o que têm, pessoas morrendo da noite para o dia e sem o direito de se despedirem de quem ama. Pessoas que trabalham com o essencial se arriscando diariamente, sendo esses os verdadeiros herois nesses tempos caóticos. Quem deveria tomar atitudes para amenizar a situação apenas piora o cenário. Novamente, sem nenhuma perspectiva de melhora a curto prazo. A sensação é que ainda veremos o estrago ser maior.

Há três anos, na pós-graduação, muito se falava em futurismo, como a inovação e a quarta revolução industrial seriam importantes para combate de doenças, como análise preditiva de dados seria fundamental para evitarmos hecatombes (de fato, na época fiquei bem impressionado sobre predições sísmicas, que mitigavam estragos de terremotos) e como a inteligência artificial seria a chave para nosso futuro. Pois bem, estamos lá e por mais que tudo isso seja de fato importante no combate à pandemia, a sensação é que nada disso tem adiantado no fim do dia. Sim, provavelmente a velocidade é maior que em outros tempos para desenvolver um combate eficaz e mesmo para mitigar a proliferação, mas sinto que estão todos perdidos, despreparados, sem saber o que fazer. Minhas convicções de modernidade foram para o saco ao ver muitas pessoas ainda agindo de modo primitivo nesses dias. No fim, tudo se resume a sobrevivência e ninguém faz a mais vaga ideia do que está fazendo - as notícias estão aí para comprovar isso.

Não sei o que vamos encontrar do outro lado dessa pandemia. Não sei sequer se chegaremos ao outro lado e nessa altura do campeonato, confesso que já não ligo mais tanto para isso. Às vezes acho que estou vendo a versão final das pessoas que gosto e, por mais que seja um pensamento que me assuste, é uma possibilidade que infelizmente não posso descartar, tamanha volatilidade do mundo e do quão efêmero ele é. O mundo que conhecíamos deixou de existir para bem ou para o mal. Voltamos para o básico em absolutamente tudo.

Só queria poder andar entre as árvores sem o menor roteiro programado, como sempre gostei de fazer. Sair por aí, como a eterna alma inquieta que sou desde os tempos de moleque, na periferia da Vila Silvia. Queria abraçar minha namorada, essa alma maravilhosa que só merece coisas boas que a vida pode oferecer. Queria ter a certeza que todos que amo estão bem e que isso não vai afetar ninguém que eu goste. Mas de qualquer jeito, acho que é a hora de encarar isso de frente e ver no que vai dar, torcendo pela ciência e precisão da análise de dados, esperando que esses fatores sejam tratados com a seriedade que merecem. Sobrevivendo e com isso passando, certamente quero mais disso. Espero que logo, rezo para que o quanto antes.

Mas o mundo que existia até março acabou.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Diário de uma pandemia

Já estou no meu sexto dia de quarentena. Graças à Deus, ainda estou em uma condição relativamente boa se formos pensar no panorama gera do Brasil, fazendo home office, cujo principal impacto é apenas com a produtividade levemente afetada e com saúde suficiente para tentar levar essa situação em seu limite máximo. Preferia que isso fosse uma opção, mas se é necessário no momento para frear essa pandemia mortal, que seja, farei com o máximo de otimismo possível.

No âmbito pessoal, em um momento da vida em que estava cada vez mais contente em sair e fazer coisas, essa pandemia não deixa de ser um golpe duríssimo. Pensando macro, os pesadelos já são mais materiais e uma hecatombe se avizinha a cada dia que passa.

Não será fácil, mas vamos que vamos.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Preces escritas II

Continuo achando que não existe jeito certo de conversar espiritualmente com Deus ou qualquer outra entidade divina em que acreditamos. De fato, cada dia que passa cago cada vez mais para todas as estruturas dogmáticas existentes.

Mas gostaria de fazer mais uma prece. Mais simples.

Olá, Deus. Está por aí? Espero que sim.

Nesta tarde, gostaria apenas de te agradecer pelo último mês. Por recomeçar, por me fazer sentir algo novo. Por me fazer sentir algo de novo. Da última vez que fiz uma prece escrita, meu coração ainda estava partido por inúmeras razões, mas o mês de Outubro foi um dos mais especiais da minha vida. Muito mais do que imaginava.

Que esse período seja de suma importância para meu crescimento e melhorias enquanto pessoa. Daqui, fica a minha oração para que eu não me perca no meio do caminho. Sei que a magia da coisa é justamente ir sem saber para onde estamos indo, mas que eu mantenha a serenidade e agilidade emocional que vem se fazendo mais presente nos últimos tempos.

Obrigado,
Marcus

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A vida acontecendo sem perceber

- É uma sensação muito ruim. Parece que fiquei preso a um determinado período de tempo, querendo repetir situações, sem seguir em frente verdadeiramente. 

Entrei na sessão de terapia incomodado, parecia que tinha despertado de uma hipnose. A culpa, sempre ela, se fazia presente novamente. Sei que isso, de algum modo, me fazia pensar que estava realizando algum progresso moral, o que não é verdade. Mas cheguei na última segunda me sentindo completamente parado no tempo, querendo reparação ao invés de utilizar tudo o que aprendi nos tempos mais difíceis para seguir em frente. Isso vale para todos os aspectos da vida, como no profissional, de relacionamento, de perdas na família e em um apego desmedido aos momentos bons do passado.

- Será? Vamos recapitular.

E recapitulamos todos os acontecimentos de um ano que, até então, estava considerando o pior de todos da minha vida. Vários. Minha terapeuta sabe dos acontecimentos, sem distorções, sem passar pano.

- Sério, olha o tanto de coisas que você fez nesses últimos meses. Está mais aberto, confiante, seguro, disposto. Você cresceu bastante esse ano, se permitiu viver coisas que não fazia antes, conheceu pessoas novas, fez coisas diferentes, saiu muito mais, encarou seus traumas de frente, criou uma nova dinâmica para o relacionamento com seus familiares. Como você diz que parou no tempo? Percebe como você viveu muito mais nesse ano do que em outros períodos? 

O estalo veio pesado. A vida aconteceu e com uma certa intensidade, mas não percebi. Até devo ter saboreado, mas não como deveria. Segui em frente e nem soube disso.

E saí da terapia pensando de fato como muitas vezes fazemos nossas coisas e não percebemos o quão boas elas podem ser. No meio de algumas perdas difíceis, nosso julgamento fica completamente nublado e não notamos que utilizamos as coisas que aprendemos em períodos difíceis, de erros, de dores. Focamos muito nas dores e nos apegamos às memórias de períodos de alegria, de carinho.

O presente está aí pra lidarmos com ele, percebendo as coisas boas e estando presente de verdade, não parcialmente. Essa é, talvez, a grande lição que eu tenha aprendido nessas últimas semanas.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

De volta para casa

Mal tinha acabado a música "When the Smoke is Going Down" e já estava caminhando para fora do Canindé, com meus cabelos longos completamente bagunçados e em completo êxtase, imaginando se veria o Scorpions novamente, em alguma outra oportunidade. Tinha sido um dos shows mais energéticos e fortes que alguém poderia ter visto, afinal, eram caras na casa dos 50 e poucos pulando como se estivessem nos anos 70, completamente entretidos. De fato, eles voltaram para o Brasil algumas vezes, mas em casas menores e em ocasiões que infelizmente não casou para que eu comparecesse, mantendo aquela noite de 12 de outubro de 2005 como a maior memória da banda até então.

Avançando seis anos no tempo, já com o cabelo mais curto e vivendo talvez o momento mais pacífico da primeira metade dos meus vinte e poucos, me vi na Arena Anhembi, na noite de 10 de setembro de 2011, estupefato com a performance do Whitesnake e pensando o que diabos o Judas Priest seria capaz de fazer para que a noite fosse ainda mais memorável (resultado: um dos shows mais completos que vi na vida). O Whitesnake também voltou ao Brasil em outras ocasiões (em 2017, por exemplo, poderia ter ido), mas também não imaginava que voltassem para São Paulo depois disso.

Duas bandas que ouço desde o início da adolescência e que já estavam na minha memória. Duas bandas cujos integrantes principais ou beiram, ou passaram dos seus 70 anos. Duas bandas que, independente da idade de seus integrantes, mostram que o tempo foi generoso para eles e que o poder de entreter as pessoas continua tão forte quanto outrora.

E no dia 21 de setembro deste ano me senti de volta para casa depois de uma longa espera. O tempo passou e já não tenho mais o cabelo comprido dos meus 17 anos ou a vitalidade dos meus 23. De fato, sinto que envelheci uns cinco anos em um raio de seis meses nesse ano estranho que estamos vivendo. Mas no momento em que embarquei no metrô rumo ao Allianz Parque, me reconheci novamente. Estava de volta para casa.

Todo aquele ritual de dias de shows ficou diferente do que estava acostumado. Hoje, ao invés de passar um dia inteiro na base de salgadinho, já me alimento melhor e planejo toda a rotina de alimentação do dia - foi assim em 2017, no Lollapalooza, por exemplo. Também não fico mais uma tarde inteira na fila na tentativa de pegar um bom lugar, algo que é inútil se você não compra ingresso de pista premium. Com esses anos de experiência nas costas, cheguei ao Allianz por volta das 17h, pouco depois de começar o show do Europe.

Apesar do meu passado de ouvir rock dos anos 80 em excesso, me aprofundei pouco em Europe, ficando restrito aos principais hits, como Cherokee, Carrie, Rock the Night e, claro, The Final Countdown, música que sempre considerei como trilha sonora de uma invasão alienígena e que hoje não consigo desassociar de Arrested Development. Durante o show, circulei praticamente a pista inteira do Allianz em busca de um lugar decente para assistir as outras bandas. Independente das associações bizarras na minha cabeça e do constante movimento, o show foi bem competente e não teve como ficar sem pular durante The Final Countdown. Provavelmente angariaram bons fãs naquele fim de tarde, do mesmo jeito que Rage fez comigo no mesmo dia que vi Scorpions em 2005.

De modo que não consigo acreditar, senti menos câimbras nesta noite, aos 31, do que nos shows que costumava ir por volta dos 21, 22 anos. Testamento por levar a sério os exercícios? Não sei, mas estava bem inteiro para o show do Helloween. A princípio, a banda que tocaria nesse momento seria o Megadeth, mas que cancelou todos os compromissos por conta do câncer de garganta do líder Dave Mustaine. Na época do anúncio do cancelamento fiquei bem chateado, afinal, não apenas veria a banda pela terceira vez, mas um dos meus heróis musicais estava abatido. A vinda do Helloween com Kiske e Kai Hansen, em compensação, caiu muito bem. Trata-se de uma banda que gostava muito no início dos meus 20.

E foi um grande show! Andi Deris, o outro vocalista, tem um carisma enorme. Kiske continuou com um vocal potente e os duelos de vozes não poderia ser melhor. Músicas como Future World, Dr. Stein, Power e I Want Out me fizeram cantar junto sem pensar duas vezes. E o melhor ainda estava por vir.

Felizmente, o intervalo entre um show e outro não era longo. Logo, não demorou muito para a que a música "My Generation", do The Who, ecoasse por todo o Allianz Parque, precedendo a entrada de uma das maiores bandas de hard rock da história. Bad Boys fez as honras de deixar todo mundo louco. David Coverdale estava claramente envelhecido, mas a voz rouca e a energia de sempre fez com que a mística permanecesse do mesmo jeito que foi em 2011. A setlist, inclusive, foi bem parecida, trocando apenas as músicas do Forevemore (então, álbum mais atual) pelas do Flesh & Blood. Destaque também para o solo de bateria de Tommy Aldridge (ex-baterista do Ozzy), que mesmo com a idade avançada, deixou todos boquiabertos com tamanha vitalidade e um tanto de selvageria, ao ponto de abandonar as baquetas e fazer um solo com a mão, espancando os bumbos como se não houvesse amanhã.


Que momento!

Apenas duas coisas estavam bem diferentes em relação ao show de 2011: estava quase dez anos mais velho e dessa vez fiquei mais arrepiado com "Still of the Night" do que "Give me All Your Love Tonight". De resto, o sorriso no rosto ao final do show e aquela expressão de "caralho, o que acabei de ver?" foram iguais. Estava completamente vencido e a noite já teria sido memorável mesmo se não tivesse a banda seguinte. Mas felizmente existe o Scorpions.

Graças a Deus que existe o Scorpions!

Não existia mais o Marcus cabeludo ou a minha versão do início dos vinte. Existia alguém que ostentava essas memórias, mas que estava sedento por um update, quase 15 anos depois.

Estamos falando de uma banda com mais de 50 anos de estrada e cuja a vitalidade eram de jovens iniciantes. Eles próprios tinham anunciado aposentadoria dos palcos em 2010, mas não aguentaram tanto tempo fora dos palcos. Olha, pela alegria que eles demonstraram em cena, todos saíram ganhando. Na dobradinha "The Zoo" e "Coast to Coast", meu momento preferido da noite (e possivelmente do ano), entendi o porquê de gostar tanto de rock and roll por uma vida inteira. Entendi a razão deles continuarem tocando: é uma energia sem igual. Uma troca maravilhosa. Outros estilos e bandas podem ter uma vibração memorável e acho que muito vai de como encaramos a vida e os nossos gostos, mas essa paixão por esse estilo específico carrego de costa a costa. E no fim do dia isso faz uma diferença enorme.

O show foi mais curto do que em 2005, faltaram músicas como Holiday e We'll Burn the Sky, mas sobrou emoção em clássicos como Big City Nights, Send Me An Angel, Wind of Change, Blackout e a matadora Rock You Like a Hurricane para fechar a noite. E que noite!

Não importa o quão difícil e cheio de perdas esteja meu ano, o dia 21 de setembro ficará para sempre marcado como o dia em que me reconectei com um dos ambientes que mais gosto, com uma energia que aprendi a amar desde cedo. Foi o dia em que Europe, Helloween, Whitesnake e Scorpions escreveram uma carta de amor em forma de rock para uma alma que rejuvenesceu uns dez anos nessa noite de sábado.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Por todas as cicatrizes

No momento em que abri a nota no Evernote para escrever um texto sobre pancadas físicas que deixam marcas, como meu queixo costurado, meu dedo do meio com a unha completamente deformada por conta de uma porta que se fechou violentamente na minha mão quando era pequeno, meu joelho estourado - heranças de uma infância, no mínimo, desastrada - e minha tatuagem recém desenhada, parei para pensar um pouco mais além nas cicatrizes. Cortes bem mais profundos do que os visíveis na pele. Coisas que nunca coagularam de fato.

Nestas últimas semanas tive algumas das sessões mais intensas de terapia, daquelas de sair de lá realmente com mais perguntas do que respostas, analisando cada aspecto do meu dia a dia. Depois de quase dois anos indo religiosamente em todas as segundas, finalmente consegui abrir segredos guardados por mais de 20 anos, coisas que tiveram um efeito muito mais pesado do que conseguia dar crédito e que não tinha coragem de verbalizar com ninguém, nem mesmo para mim na frente do espelho ou em voz alta em um ambiente sozinho. Violências que aguentei sozinho porque não tive confiança de abrir para ninguém. Coisas que precederam tais violências que me fizeram entender, enfim, o porquê de não confiar nas pessoas de maneira plena, de sempre me sentir sozinho (especialmente nesse ano), independente de estar rodeado ou não. Demônios que sempre tentei negar a existência ao longo desses anos, até para mim diante do espelho.

Mas finalmente encontrei um respaldo para admitir todas as cicatrizes. Em voz alta, de coração mais aberto. Para outras pessoas, enfim. Para quem deveria saber o que aconteceu lá atrás. Esse respaldo veio de mim mesmo, finalmente forte o suficiente para não ligar mais para a reação do próximo.

E depois que expus minhas cicatrizes das quais sempre senti vergonha que vieram algumas das conversas mais genuínas que tive nos últimos anos. Talvez até na vida. Conversas reveladoras, que me fizeram entender um pouco mais da minha trajetória e até o que a precedeu, antes de chegar no mundo. Conversas que me fizeram entender a magnitude da mágoa presente na minha vida, a raiva fortíssima, o sentido do perdão e a vontade de apertar o botão reset em relações que pareciam irrecuperáveis.

As cicatrizes continuam presentes. As físicas e as emocionais. Não irão embora enquanto estiver vivo. Mas hoje, ao invés de fugir delas, tento as compreender, ver as consequências de anos escondendo elas, procurando por respostas no escuro. Hoje quero apenas sentir minhas cicatrizes, que nesses dias de luto e solidão, às vezes queimam tão forte quanto a do Harry Potter quando se aproxima de Voldemort. Mas queria que elas soubessem que elas não têm vida própria, achando que poderão me machucar pra sempre. Elas são fortes, mas não o suficiente para me derrubar, afinal, não existe seres humanos sem cicatrizes. Ninguém é realmente imaculado a esse ponto.

Hoje conheço bem todas essas cicatrizes, cada pancada tomada e todas as consequências. O suficiente para transformar meu presente, tentar me tornar uma pessoa melhor e ir mais forte para o futuro.