E o Palmeiras foi campeão do Campeonato Paulista de 2020! Em cima do maior rival, tirando um pouco o gosto amargo da injustiça que aconteceu em 2018, no Allianz Parque. É um sentimento estranhíssimo, com um misto de alegria e culpa, por me sentir feliz com algo que sempre amei pela vida inteira no dia em que atingimos a triste marca de cem mil mortos no Brasil por conta dessa pandemia maldita. Foi um título silencioso, sombrio e estranho, considerando todo o panorama atual, mas que ao mesmo tempo teve contornos belos, com a base subindo forte para o profissional, com aquela aura soberba do ano passado indo embora, com o passando reencontrando o presente na forma do técnico Vanderlei Luxemburgo e com certos requintes de crueldade com quem se propôs a assistir esses jogos.
Vale dizer que o campeonato não começou agora. Antes da pandemia explodir, tinha comentado por alto com alguns amigos que acreditava que ao menos o Paulistão iriamos abocanhar, não passaríamos em branco após um 2019 bem errático em todos os aspectos. Por incrível que pareça, nesse mesmo campeonato marquei presença em dois singelos jogos (Guarani e Ferroviária). Dois jogos bem sem sal, mas que hoje guardo com um certo carinho, pois foram os últimos jogos em que estive em um dos lugares que mais gosto: a arquibancada. Em campo, algumas diferenças já eram visíveis em relação aos anos anteriores, com os garotos da base, historicamente deixados de lado em detrimento de compras um tanto quanto duvidosas, assumiram seus papeis como se conhecessem o Palmeiras há anos. Especialmente Patrick de Paula e Gabriel Menino. As raras contratações desse ano também empolgaram, como Rony (embora haja controvérsias entre alguns amigos) e Viña (esse, mais unânime entre os palmeirenses que conheço). A mescla com jogadores já experientes ou com tempo de casa tinha tudo para dar liga e estávamos caminhando relativamente bem tanto no Paulista, quanto na Libertadores.
E veio a pandemia. Chegou com força. Nos trouxe medo, isolamento, morte, desolação. Vi amigos sofrendo com isso, seja com internação própria, seja com perda de entes queridos. Tolhemos muito daquilo que vivemos, que gostamos. E não foi embora. O medo permanece presente, seja por nós, seja por todos que amamos. Destruiu nosso psicológico, afetou nosso espírito de forma bem negativa. Os números são assustadores e às vezes acho que não arranhamos a superfície do problema. Hoje, nos apegamos com força nas notícias sobre eficácias de vacinas para ver se temos alguma perspectiva no horizonte para que possamos recuperar um pouco do que gostávamos da nossa vida. É um ambiente bem desolador e nisso tudo, o futebol paralisou por meses, não apenas no Brasil, como no mundo inteiro (exceto Belarus, mas não vou tentar entender o que rolou por lá). As notícias sobre os times se resumiam a campeonatos de videogame, treinos caseiros e reprises de jogos históricos de outrora. Não conseguia acompanhar nada disso, pois só de lembrar de momento maravilhosos como torcedor (que felizmente foram muitos), parecia que a situação piorava.
Nisso tudo, o Campeonato Paulista, assim como as coisas até a primeira metade de março, era um passado distante. Por mim, poderia terminar do jeito que estava. Era contra a volta nesse momento. Internamente, me perguntava se conseguiria assistir aos jogos ciente de tudo o que ainda está acontecendo ao nosso redor.
Mas foi liberado, aparentemente os protocolos foram seguidos e eis que na metade de julho o campeonato retorna com um clássico. Palmeiras x Corinthians, em um Itaquerão completamente vazio. Foi esquisito ver um clássico completamente vazio, sem estar perto dos amigos ou na arquibancada em si. Os jogadores, completamente sem ritmo, a transmissão nos lembrando da gravidade do problema que estamos vivendo. Do mesmo jeito que era contra a volta do futebol nesse momento, também sentia falta de ver o Palmeiras em campo e discutir coisas com os amigos que variasse um pouco das mazelas da pandemia. Para nós, o futebol é mais do que um escape, às vezes é um elo que une. Não sou de participar de grupos de torcedores, estou apenas em um, onde há anos transcendemos futebol, mas que sempre nos lembramos o que nos uniu um dia. E nesse dia voltamos a falar um pouco de futebol como antes. Ainda me sentia culpado por estar acompanhando e discutindo isso em uma época tão negativa, mas coloquei a camisa do Palmeiras e vi a partida, concentrado como sempre. Cornetando como sempre também, inclusive por perder dos maiores rivais quando eles estavam prestes a serem eliminados. Os trouxemos de volta para o jogo.
Aos poucos fui refletindo minha relação com o futebol em pleno período de pandemia. Mesmo sendo contra o retorno do futebol como um todo, ver o Palmeiras vencer e avançando de fase era um alento pra mim e sentia que era o mesmo para muitos outros palmeirenses. Mas a comemoração foi completamente silenciosa até às semifinais. Discreta, sem mesmo gritar um gol em casa, como normalmente faria nessas situações.
Se tem algo que me deixa muito feliz nesse título, é ver como a base veio forte. Ver jogadores como Gabriel Menino e, especialmente, Patrick de Paula cravando seus nomes na história do Palmeiras, me faz abrir um largo sorriso, independentemente da situação. Ambos foram os principais nomes para que pudéssemos chegar na decisão. E pela primeira vez desde março berrei um "gol" bem gritado, com o chute certeiro de Patrick de Paula contra a Ponte Preta. Estávamos na final e reencontraríamos o Corinthians. O mesmo que não eliminamos na volta dos jogos. O mesmo de 2018, em uma final que até hoje não conseguimos engolir.
Eis que a decisão me trouxe de volta algo que não tinha há tempos: ansiedade pré-jogo. O intervalo entre as partidas foi muito menor do que o costume por razões de calendário, isso ajudou a mitigar um pouco essa ansiedade, mas queria vencê-los. Vencer um torneio é bom, em cima do maior rival é algo para se gravar em pedra. Dois encontros: quarta (5) e sábado (8). Iríamos decidir em casa, sem ninguém a não ser a torcida silenciosa de seus lares. Nos grupo de palmeirenses no WhatsApp, todos igualmente ansiosos. Em conversas avulsas com alguns outros palmeirenses, idem. O sentimento era unânime: todos cientes de todos os problemas, mas sabendo que ainda era uma final. Ainda era um Palmeiras x Corinthians e ainda desperta o torcedor que nunca deixou de existir entre nós. Mesmo nas horas mais escuras.
O silêncio se deu também no clique das redes do primeiro jogo. Após uma partida bem sem sal, com um zero a zero bem entediante, pra dizer o mínimo, fomos para o segundo jogo no sábado, em um Allianz Parque fechado. De sábado não passava. Era o tira-teima.
Enfim, o clima de final se fez presente, ainda que por frações do que estamos realmente acostumados. Ligação por vídeo e trocas de mensagens não passam nem perto da estar na rua sentindo aquela aura de decisão de campeonato, seja para ver no estádio ou no bar, mas foi um alento trocar umas palavras com amigos queridos antes da partida. O jogo aconteceu no dia em que chegamos à triste marca de cem mil mortos por conta desse vírus maldito. Senti meu estômago revirar quando vi os números. Me senti culpado demais por tentar voltar meu foco para a final do campeonato em uma hora tão difícil quanto essa. Ao mesmo tempo, tentei racionalizar e pensei que uma comemoração dessas seria um alento para alguns palmeirenses que estavam acompanhando. Seria a consagração de uma molecada que cresceram de forma maravilhosa. Seria o reencontro do Luxa com um título do Palmeiras após doze anos. Os números martelavam forte na minha cabeça, mas ao mesmo tempo queria ver o Palmeiras campeão, já que estavam de volta.
Campeões!
Deu uma dor no coração ver o estádio vazio, com som artificial da torcida. Em todas as vezes. Mas por hora, não tinha outro jeito a não ser ver todas aquelas faixas e o silêncio de quem deveria estar ali para empurrar. Com a bola rolando, após um primeiro tempo tão ruim quanto o jogo anterior, o Palmeiras voltou com tudo para o segundo tempo e abriu o placar logo de cara, com Luiz Adriano. Pulei bastante na hora, talvez um pouco menos em silêncio do que em momentos anteriores. O título estava mais perto do que nunca!
E tinha tudo para ser nosso em tempo normal. Apesar da diferença mínima, os rivais não assustavam em suas investidas e estávamos mais propensos a marcar o segundo do que tomar. E foi assim até os 49 minutos e 50 segundos. Por alguma razão, Gustavo Gomez tomou uma decisão bem errada e cometeu um pênalti no último lance do jogo. Não era possível. Entrei em estado de descrédito com aquilo que estava presenciando. Não era possível! 2018 estava se repetindo?
Jô converteu a penalidade (por pouco não perdeu) e fomos para a decisão por pênaltis. De novo. Igual 2018.
Na decisão de 2018, estava lá, na arquibancada. Desta vez estava no sofá, incrédulo e pensando "isso escapou das nossas mãos de maneira inacreditável". Nosso histórico recente de penais não ajudava nem um pouco. Mas ai o Weverton defendeu a primeira cobrança e voltei a acreditar novamente. Mas ai lembrei o porquê de estar incrédulo: Bruno Henrique errou a cobrança dele. Nosso arqueiro ainda defendeu mais uma e os cobradores fizeram todos os outros, a despeito de termos ao menos duas cobranças extremamente mal batidas. O fato é que chegamos ao último pênalti podendo ser campeões, com Patrick de Paula na cobrança. Ele merecia esse título, ele é a personificação do termo "a base vem forte". E veio! Foi dele a cobrança campeã. Palmeiras campeão paulista pela 23ª vez. A primeira desde 2008. Eu pulei pela sala feliz da vida com essa conquista. Liguei para alguns amigos palmeirenses mais próximos para gritar um belo "é campeão", só para ter um mínimo de gosto de ao menos emular esses momentos.
Mas foi uma comemoração silenciosa. Não teve a pirotecnia de conquistas recentes anteriores, abraços, cervejas na rua, pulando por horas. O momento que vivemos infelizmente nos impediu de pensar nisso. Os números que estamos vendo (e que infelizmente não para de crescer) me faz não ter vontade de comemorar qualquer vitória que seja, mesmo em âmbito estritamente pessoal. Mas o momento faz com que cada pequena vitória seja saboreada, seja no abraço com a pessoa que ama, seja em uma caminhada ao sol com máscara, seja com entregas bem vistas no trabalho, seja com seu time campeão, mesmo em um período muito difícil para a humanidade. Só espero que esse período sombrio que vivemos acabe logo, para que as próximas comemorações de título do Palmeiras sejam barulhentas do jeito que realmente devem ser, especialmente se for em cima de rival.
Meus sentimentos para cada uma das famílias dos mais de cem mil mortos nessa pandemia. Infelizmente já presenciei amigos e pessoas próximas sofrendo perdas nesse período. Esse texto foi escrito para que eu tente me apegar em algumas coisas boas que às vezes acontecem, como uma paixão antiga.

