Filas de show são um capítulo a parte graças as figuras que permeiam o local. Além das pessoas que a gente eventualmente conhece, aparecem bêbados – que até levantaram um coro do Matanza -, um cover do Felipão onde esses mesmos bêbados se aproximaram para tirar fotos com ele, constrangendo o coitado e os ambulantes, sendo que o mais estranho de todos era um rapaz que aparecia vendendo o livro do Ozzy com uma espécie de papagaio de pirata atrás dele com uma máquina de débito. Sim, os infelizes pensaram em tudo.
Isso sem mencionar os “jênios” da CET, que colocaram uma enorme faixa escrita “Ozzi” Osbourne. Isso dispensa qualquer comentário.

O tempo tava esquisito demais, afinal, estava um calor terrível, mas cheio de nuvens apontando que iria chover bastante em algum momento do dia. Já escolado com a chuva do show do Iron e sendo veterano de arquibancada dos jogos do Palmeiras, tratei de levar a minha capa de plástico – na qual não adiantou muito no final.
Uma vez dentro do Anhembi, fomos pra frente e nos estabelecemos por lá. Não demorou muito pra lotar e pra lembrar o porque de eu não querer mais ir pras pistas. Primeiro porque a maioria dos shows que vi na pista resultou sempre em dores no joelho que duravam dias e por mais que estivesse mais bem preparado fisicamente em relação aos shows anteriores, eu odeio aglomeração.
E então começou a chover forte.
Foi quando a expectativa cresceu e o Sepultura entrou pra abrir a noite. Nesse meio tempo a parte da capa que liga o capuz e as costas se abriu e a chuva caiu sem dó em mim. O Sepultura mostrou a mesma competência de sempre, mesmo sem os irmãos Cavalera, os caras continuam muito bons e os clássicos estavam lá (Troops of Doom, Arise, Dead Embryonic Cells, Refuse/Resist, Inner Self, Territory e cia). Eles por si só já animam, mas a noite ali era de outro.
A chuva deu uma trégua nos 20 minutos de espera entre o Sepultura e Ozzy e a expectativa cresceu de vez quando uma música do Era tocou alta com as luzes apagadas. Ele iria entrar – sem os vídeos de costume, provavelmente por causa da chuva – e aquele local iria cair abaixo.
Não deu outra, ele entrou, cumprimentou o povo e lançou logo de cara Bark at the Moon. Eu não conseguia acreditar, estava vendo uma lenda da música ali, no alto de seus 62 anos e ainda chutando traseiros com muita competência.

Depois ele emendou com a excelente Let me Hear You Scream, música do último álbum e a chuva recomeçou. Durante Mr. Crowley ainda consegui ver alguma coisa, mas de I Don’t Know até o final de War Pigs eu tive que ficar limpando o óculos a cada meio minuto pra ver alguma coisa. Foi meio bizarro.
A tonalidade das músicas estavam bem diferente e isso foi sentida em Shot in the Dark, até pela idade e pela quantidade massiva de drogas que o Ozzy usou, eu duvido que ele cantaria com um tom mais alto, mas ainda foi bem competente.
O resto da banda esbanjava competência, em especial o guitarrista Gus G, que recebeu a ingrata tarefa de substituir Zakk Wylde, querido de 10 entre 10 fãs do Ozzy. O solo de guitarra dele foi fenomenal, com direito a brasileirinho e tudo. Logo depois emendaram com Iron Man, tem como reclamar disso?
O velho Ozzy era cheio de sorrisos, cenas e até mordeu um morcego de borracha, nos fazendo lembrar desse episódio. Ele não hesitou em tacar espuma no pessoal da pista Premium e pareceu se divertir bastante ali.
Não sei se pela condição física dele ou da chuva, o bis foi emendado direto e com isso, de Crazy Train fomos direto para Mama I’m Coming Home sem demorar nada.
Depois fechou a noite com chave de ouro tocando a clássica Paranoid. O povo ainda insistia em pedir No More Tears, mas as luzes já estavam acesas. Não importa, foi um show histórico.
Pra voltar? Sem voz, com dores fortes no joelho e tomando chuva. Graças a esse dia fiquei gripado durante uma semana, quando melhorei, outro show estava por vir e esse conseguiu ser ainda mais histórico.
Continua no próximo capítulo.
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