Porém, em fevereiro, um dessas paixões platônicas e efêmeras de metrô foi mais memorável do que de costume, ao ponto de me sentir genuinamente triste de desembarcar em minha estação e vê-la seguindo adiante. Dessa vez foi tão diferente que a cada uma das cinco estações do percurso da Linha-4 Amarela do metrô eu divagava a respeito dessa mulher, sua beleza e criava mil e um cenários em minha cabeça.
Essa paixão começou na estação Pinheiros, sentido Luz, terminando na estação República, local onde faria a baldeação para outra linha.
Estação Pinheiros <-> Estação Faria Lima.->
Os trens da Linha-4 Amarela são ligeiramente menos caóticos do que os da famigerada Linha-3 Vermelha, onde você é socado para dentro do vagão como se estivesse fugindo do apocalipse. Assim, consegui um lugar para sentar com uma certa facilidade após uma descida ao centro da Terra (também conhecida como Estação Pinheiros) e me acomodei para as quatro estações seguintes.
Alguns instantes depois entrou uma mulher e ficou em pé na minha frente. Meu coração disparou como poucas vezes aconteceu nos últimos anos. Ela tinha cabelos pretos, liso, um olho bonito, uma expressão que misturava serenidade e assertividade, estava com uma blusa branca com algum tipo de faixa e uma calça preta. Provavelmente tinha saído do trabalho, mas isso fica somente no campo da suposição.
Independente de onde ela vinha e para onde ela estava indo, em minha cabeça eu queria apenas mais uma estação após a Faria Lima para que minha paixão platônica durasse mais alguns minutos para que ela se tornasse inesquecível.
Estação Faria Lima <-> Estação Fradique Coutinho.->
A estação Fradique Coutinho foi a última estação a ser inaugurada dentre essas cinco estações citadas. Por questões de semanas eu não teria essa parada a mais e, por alguma razão, hoje toda vez que paro nessa estação eu penso nessas paixões platônicas que por vezes atingem em cheio.
Durante esse percurso, notei que ela permaneceu a todo instante com seu smartphone, algo bem comum no sistema metroviário atual - de fato, é mais difícil ver outras atividades, embora muitas pessoas ainda resistam e carreguem seus livros. Na hora me perguntei mentalmente quais seriam os gostos dela, quais músicas ela gosta, que tipo de séries ela assiste, quais livros ela gosta de ler e outras coisas que possivelmente renderiam bons assuntos durante um café.
Também pensei em programas que caminham no limiar entre o romântico e o piegas, como por exemplo, se ela acharia uma boa ideia sentar em um coqueiro comigo ao som de Santana (em minha cabeça, a música "You Are My Kind", em parceria com Seal, me pareceu uma excelente pedida), enquanto ficávamos abraçados, sem muitas palavras.
E ela não desembarcou nessa estação.
Estação Fradique Coutinho <-> Estação Paulista->
O percurso entre a estação Fradique Coutinho e Paulista é, de longe, o mais extenso da linha amarela até o momento (ao menos enquanto não inauguram a estação Oscar Freire), isso para mim significava mais alguns preciosos minutos daquela paixão que, sabe-se lá como, me arrebatou.
Apesar de não realizar muitos contatos visuais, percebi que ela continuou teclando (que saudades que estava de usar essa palavra) no celular. Seria um possível namorado? Caso sim, esse é um homem de sorte e tudo o que eu poderia desejar era felicidade, a maior possível para ambos. Mas nesses minutos eu não quis aventar muito essa possibilidade, apenas continuei apaixonado por aqueles minutos, como se uma música bonita tocasse e me arrepiasse.
Mas o fim disso se aproximou com a chegada na Estação Paulista. Ela não desembarcou, ainda tinha mais uma estação.
Estação Paulista <-> Estação República->
Como toda paixão platônica efêmera, o fim é inevitável. E a linha de chegada foi a estacão República, onde eu desembarquei para transferência de linhas. Mesmo se ela também descesse nessa estação, provavelmente só com um golpe muito intenso do destino para reencontrá-la, afinal, a estação citada é uma das mais movimentadas da cidade - o que não é pouca coisa.
Por um breve momento lamentei também a ausência da estação Higienópolis - Mackenzie, mas tentei saborear ao máximo esses momentos restantes de paixão, pensando em mais situações hipotéticas, como nós sentados no Parque do Ibirapuera, meu porto seguro nessa cidade caótica, na beira do lago que tem no meio do parque e esperando o sol se por.
E cheguei à República. Levantei, ela permaneceu imóvel e assim essa paixão platônica teve seu fim.
Estação República <->-> Para a posteridade.
Já fora do trem, fiquei parado por alguns segundos e vi o trem indo embora, como se meu coração também estivesse indo. Não podia ficar muito mais tempo, afinal, o fluxo na região é avassalador.
Foi, provavelmente, a paixão platônica mais forte com uma desconhecida. Não sei absolutamente nada dela, mas desejo o máximo de felicidade para ela, pois ela despertou uma fagulha de sentimento em mim, algo que eu considerava completamente abandonado por ter me fechado por um bom tempo.
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