Em meio aos dias corridos, é difícil parar para pensar na quantidade de coisas que aconteceram em uma década, mas durante algumas jornadas de metrô, fiz esse exercício e vi como as coisas ainda refletiam em algumas atitudes. Entre março e abril, confesso, parecia que não queria me desvincilhar de velhos hábitos que se fizeram presentes durante boa parte da década (em abril, parecia o Marcus do início dos vinte, que estava na faculdade, nos melhores e piores momentos), mas após boas porradas da vida, comecei a entender melhor que talvez fosse a hora de romper de vez com o passado, entender de vez quem realmente sou e abraçar o momento da vida atual.
E no momento atual da vida, a maior batalha é aprender a dizer "não". Confesso, esse é um desafio que estou lutando para vencer em diversas frentes da vida, mas aos poucos estou conseguindo e essa tem sido uma grande ruptura do menino de vinte anos que pensava "não tem tempo ruim" e que pensava em como agradar as pessoas. Hoje, dizer "não" para algumas coisas e pessoas tem sido sensato. Nem sempre consigo este equilíbrio, mas hoje consigo enxergar meus limites. Por conta disto, tenho uma gratidão enorme com as pessoas que me apontaram esse ponto cego na minha vida e que me fizeram perceber que maturidade é termos que, às vezes, recuarmos.
Durante o ano, refleti sobre o momento em que finalmente parei de tentar controlar as coisas ao meu redor e como isso me deixou mais livre. Entendi e controlei uma das maiores causas da minha depressão, que tomou parte desta década e que, volta e meia, ainda insiste em me atormentar em momentos em que menos espero - ainda acontece, mas não tenho mais medo de abordar o assunto abertamente.
Percebi também que meu corpo e mente tem limites. Não dá mais para virar noites em bares e baladas, bebendo cerveja até o amanhecer. Em momentos, até tentei, mas percebi o quão incompatível isso se tornou. O mesmo vale para ir aos jogos do Palmeiras em todos os momentos, ainda mais quando temos outras prioridades. Por mais que nem sempre consiga, a palavra "equilíbrio" tem sido um mantra para que consiga viver bem no cotidiano, mais até do que "coragem" durante o ano de 2016 e que se manteve durante este ano.
Mas o mais importante desse ano final dos meus vinte foi que, durante este ano, finalmente passei a compreender melhor meu papel neste mundo, mais do que em toda a minha vida. Pela primeira vez sinto que tenho um propósito, que não estou andando pelo mundo no piloto automático e que as coisas que desenvolvo em meu cotidiano (trabalho e pós-graduação) podem melhorar a vida de outras pessoas.
Pensei também nas muitas coisas que aconteceram nesta década. Ainda que com percalços, consegui atingir muitos objetivos, entre eles fazer intercâmbio e estudar em uma das melhores pós-graduações da minha área. Conheci muitas pessoas, mantive velhos amigos, vi pessoas partirem. Amei, me decepcionei, desapontei pessoas, tive atitudes erradas, me atrapalhei, desci ao fundo do poço nos meus 25 anos. Parei de me medir com a régua dos outros e percebi que sou eu quem determina meu ritmo, trazendo mais leveza para o cotidiano. Passei a pensar que, se não tenho mais "toda a vida pela frente", posso fazer uma transformação por dia, mínima que seja. Sei que ainda vou falhar, que vou cair e que vou levantar. Me sinto mais humano do que quando comecei a década ou nos períodos de depressão e letargia que assolaram minha vida. Passei a ter menos medo do incerto, uma vez que aceitei que uma hora tudo termina - seja amanhã ou daqui a 50 anos.
Que os últimos dois meses dos meus vinte seja para desfrutar das coisas boas e de mais aprendizados antes de atravessar esse portal invisível, mas poderoso, que é a virada de década.
Que seja um período de muita sabedoria.
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