sexta-feira, 21 de junho de 2019

Reencontro

Ainda me lembro de estar em um apartamento em Engenheiro Goulart após sair da escola. Por conta da minha mãe ainda estar concluindo a faculdade, minha vó ia me buscar quase todos os dias e atravessávamos um pouco mais de quarteirão andando até chegar em casa. Chegando lá, meus quebra-cabeças e outros brinquedos me aguardavam. Almoçava o spaghetti que minha vó preparava, sentava ao lado da minha bisavó e de noite via o meu avô chegar do trabalho. Ele era eletricista e ia todos os dias para a região de Santo Amaro, mesmo estando acima dos 60 anos. Me sentia extremamente acolhido estando com os três ali: minha vó, avô e bisavó. Por minha mãe ser filha única, fui o primeiro dos três netos que eles conheceram e isso nos aproximou de modo natural. Se não era um lar enorme no que tange coisas materiais, certamente era gigantesco quando o assunto era amor. Eram pessoas simples e que significavam mais que o mundo para mim. Essas memórias são algumas das mais felizes que tenho enquanto criança.

E foi assim também quando eles se mudaram para a Vila Silvia, quando tinha meus sete anos, ficando mais perto dos meus pais. Foi assim quando era recebido todo sujo de terra após jogar bola com os moleques do bairro na minha infância e adolescência. Foi assim quando dava meus primeiros passos voltando da arquibancada e voltava contando como foi. Foi assim ao dividirmos o VHS para vermos filmes aleatórios que alugávamos na locadora que tinha do outro lado da rua. Foi assim nos jogos pela TV. Foi assim quando me buscavam na escola quando ainda não tinha idade suficiente para pegar ônibus. Foi assim enquanto me ajudavam nas lições de matemática. Quando ia ao supermercado junto com eles. Quando aturavam minhas dores de cabeça da adolescência. Quando me pediam para maneirar no videogame. Estive junto com eles por mais da metade da minha vida até então.

E meu amor por eles era grande, eternizado até mesmo em trabalhos de quarta-série do primário, como disse nesse post de 2012 (e foto abaixo):



Foi assim até meus 17 anos, que foi quando senti pela primeira vez que a dor da perda era cruel. Em um raio de dois anos (entre 2005 e 2007) vi minha bisavó e avô partirem - ele, de surpresa, durante uma viagem de férias em que sequer tive a oportunidade me despedir, pois estava trabalhando. Para mim foi difícil, mas para minha vó foi muito pior porque ela conviveu muito mais tempo com eles. Construiu uma vida com todos eles. Ela se mudou conosco após perder seu companheiro de uma vida, mas não perdeu o amor de quem estava ao redor. Em nenhum momento ela esteve sozinha.

Nesses doze anos seguintes que ela esteve conosco, ela presenciou o casamento de uma neta e o crescimento de outra. Esteve do meu lado quando desci fundo nas profundezas da depressão, quando larguei de mão e resolvi beber muito mais do que podia, quando estive letárgico suficiente ao ponto de mal tomar banho. Sempre fazia um comentário toda vez que eu voltava do estádio, seja em vitória ou derrota. Quando estive prestes a deixar de ir aos jogos, ver ela feliz, comentando com alegria após uma vitória contra o Joinville na Série B de 2013, me fez querer ir mais e mais vezes. Esteve do meu lado quando me recuperei e recoloquei minha vida nos trilhos, no crescimento. Me abraçou nos dias em que eu chegava cansado do trabalho, querendo apenas desabar na cama e dormir. Foi a primeira pessoa que vi após apresentar meu trabalho final na pós-graduação. Brincava muito com o cachorro recém chegado e viu nele um grande companheiro para o cotidiano. Continuava demonstrando amor por todos ao redor.

Ela sempre foi uma pessoa muito ativa. Gostava de movimento, detestava ficar parada, independente da idade. Infelizmente, nas últimas semanas, essa aura ativa se perdeu por conta de problemas de arritmia que limitaram muito os movimentos dela. Ela claramente estava sofrendo com isso, queria andar novamente e verbalizava isso, até mesmo durante a noite, inconscientemente. E estávamos fazendo de tudo para que esse estado fosse revertido e ela voltasse a ser a mesma pessoa ativa que ela gostava de ser. 

Na tarde de quarta-feira, a caminho do geriatra, infelizmente o coração dela parou. Minha família, com medo da minha possível reação, só me avisou após eu chegar em casa do trabalho. Não tinha mais o que fazer.

Hoje me sinto vazio, sem saber ainda como reagir, impotente com o ciclo da vida. Mesmo com a saúde fragilizada nas últimas semanas, ainda via uma segurança etérea no amor dela, na presença dela. Mesmo pensando muito mais a fundo no tema "mortalidade", que entrou mais em voga do que deveria na minha vida nos últimos meses. Voltar para a casa e saber que não iria vê-la novamente enquanto vivo foi uma das piores sensações que tive em toda minha vida. 

Mas hoje ela reencontrou meu avô, minha bisavó. Sua família. Todos os primos e amigos que ela deixou para trás dos tempos de Itália. Acabou o sofrimento. Vai voltar a andar de bicicleta como fazia em sua infância, antes de uma guerra que a fez sair de sua casa. Vai voltar a ser ativa e vaidosa como sempre foi. Hoje ela volta a andar com suas pernas, com a liberdade que ela queria. Hoje ela voltou para um lar cheio de amor, o lar que me lembro de quando era criança. Daqui, fico com saudades dela (e deles todos), torcendo para que um dia eu possa reencontrá-los novamente, do mesmo jeito de antes: em um lar cheio de amor.

Vó, onde quer que você esteja, queria que soubesse que, enquanto estiver vivo, estarei aqui fazendo justiça para a mensagem de amor que você deixou apenas por viver e falarei para possíveis filhos e netos sobre o quão boa você foi. Você foi uma humana rara, com qualidades que dificilmente vejo nas pessoas. Um texto desse nunca vai fazer justiça sobre o quão boa foi sua presença na Terra. Sei que você sabe, pois foi uma das últimas palavras que disse para você na última terça-feira, mas te amo muito. E vai dar tudo certo, como falei com você na segunda-feira, antes de dormir. Ontem, hoje e sempre.

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