Será que existe um meio certo de rezar? De conversar com Deus, independente se existem pessoas que acreditam ou não? Sei lá, por mais que tenha crescido em meio presbiteriano, me afastei totalmente de qualquer coisa que lembre dogmas e criei minhas próprias regras para tratar com Deus, como ir para igrejas vazias e ter um momento de silêncio apenas. Fé é uma coisa muito íntima, particular demais para que seja motivo de conflito com as pessoas, mas ainda a tenho. Tem dias que muito, tem dias que quase nada, mas a faísca está lá acesa em meu coração.
E hoje resolvi fazer diferente. Resolvi fazer a minha prece de um modo em que consiga expressar essa minha fé de modo mais claro.
Vamos lá:
Deus, está por aí?
Olha, não sei como você está, mas a situação está meio bizarra por aqui na Terra, com muitos "cristões" usando seu nome para justificar situações atrozes, para dizer o mínimo. Sei que você deve estar olhando para isso e fazendo aquele facepalm característico de alguém que desaprova de modo sutil as patacoadas que estão fazendo.
Mas deixando essas criaturas para lá, imagino que esteja realmente com a cabeça ocupada com tantas almas perdidas e corações partidos nesse ano corrente de 2019. Sou apenas mais um no meio de bilhões de pessoas e às vezes não sei se a onipresença chega na minha pessoa. Mas imagino que sim. Quero acreditar que sim. Então farei minha prece, tentando não soar tanto egoísta, mas tentando refletir sobre muitas coisas que vêm acontecendo em minha vida.
Em primeiro lugar, sou extremamente grato pelo o que tenho e pela situação profissional atual. É uma senhora benção estar vivo e brigando por oportunidades de melhoria de vida. Tenho plena ciência do privilégio que é isso em um país onde a desigualdade é gritante e em um contexto onde as pessoas buscam mais cisão do que união. Em 2014, no momento pessoal e profissional mais difícil que passei, talvez não imaginasse a minha situação atual, mas aqui estamos. Por isso, por essas oportunidades, sou eternamente agradecido. Claro, tem coisas no dia a dia que irritam, às vezes questiono tudo o que acontece e não sou exatamente fã do mundo corporativo, totalmente plástico - um belo reflexo do mundo atual.
Mas essa parte ainda é a material. Deus, meu coração ainda está em pedaços pelos primeiros seis meses. Sei que a vida é passageira e que devemos tentar fazer nosso melhor dentro das nossas possibilidades, mas gostaria de saber se esse sentimento difícil irá passar. A sensação é que estagnei enquanto pessoa nesse mês de julho, depois de tudo o que aconteceu. Tudo o que estava fazendo era para me anestesiar e não por paixão genuína ou com brilho nos olhos. Parece que hoje estou só respirando, sobrevivendo, vivendo uma sombra de um Marcus.
Queria que meu coração voltasse a ficar pleno do mesmo modo que ficou em determinado momento do ano, ainda em janeiro. Peço apenas uma luz para recomeçar, para tentar fazer as coisas do modo mais leve possível.
O mundo está realmente complicado e acredito que você tenha coisas mais urgentes para se preocupar, mas confio na tua onipresença.
Atenciosamente, de apenas mais um humano entre bilhões de almas.
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