Pista e seus loucos
Claro, teve situações que me fizeram rachar o bico na pista, tal como a reverência ao cover do Scott Ian (guitarrista do Anthrax) e a tentativa de comprar coisas com o pessoal da pista VIP.
A escolha do Sepultura pra abrir o Metallica foi perfeita. Eles são os principais expoentes da música brasileira (de qualquer outro estilo) no exterior e é uma das principais bandas de thrash metal de todos os tempos, sendo influência de verdade. Nenhuma outra banda conseguiu usar tanto suas origens nacionais como influência em um estilo de música pesado, misturar instrumentos tribais com thrash cru é a marca do Sepultura. Arise pra mim é um divisor de águas, Chaos A.D. é genial e mesmo discos da fase Derrick Green (que sério, é excelente) são fortes, tal como o Dante XXI.
Depois o Derrick começou a interagir com o povo com seu sotaque americano e tentando uns “porra”, “caralho”, mandou mais 2 músicas do A-Lex e a excelente Convicted in Life, do Dante XXI.
O público já tava ganho. Eu nunca havia visto tamanha interação em um show de abertura, o Sepultura tava em casa e eles sabiam disso. O genial Kisser anunciou os 25 anos da banda e mandaram um dos maiores petardos que vi ao vivo: Troops of Doom.
O que veio depois foi covardia, clássicos como Inner Self, Sepulnation, Arise, Territory, Slave New World e claro, Roots Bloody Roots. Nisso, o Kisser deu uma de bambi e falou que “estava no estádio do melhor time do mundo”, claro, alguns vaiaram. Mas o clima ali tava longe de futebol, eles entregaram uma das performances mais memoráveis deles e foram merecidamente ovacionados.
Era apenas a abertura...
Interlúdio
Já incendiados pelo show do Sepultura, a galera ali estava insana. Eu mesmo estava ansioso ao extremo pelo o que viria. A noite já estava completamente tomada e a lua cheia abriu em um dia raro sem chuva na capital.
Faltavam 20, 10, 5 minutos e eis que as luzes apagam.
O que esperei desde os 8 anos estava pra começar.
The best concert in the whole wide world!
Assim que a intro de Ecstasy of Gold – comum nos shows deles, de Ennio Morricone - começou a ser tocada no telão eu já estava com os olhos mareados, era demais e logo entrou com Creeping Death. A música não é simplesmente uma das melhores do Ride the Lightning, é uma das melhores da carreira dos caras e ver ela sendo executada bem de perto era algo surreal. A ficha não tinha caído até então.

A aula de metal então prosseguiu com For Whom the Bell Tolls, Trujillo tem um carisma impressionante, James estava interagindo com o pessoal, Lars espancava tudo com as baquetas e o Kirk hipnotizava todos com seus solos.
Eu já estava ganho, estava vendo meus heróis de infância ali.
Prosseguimos com The Four Horsemen, Harvester of Sorrow e Fade to Black, sendo a última um espetáculo a parte, com o James tocando do alto do palco, o Lars abusando do pedal duplo e o Kirk solando de maneira frenética.
Depois disso, James perguntou se todos tinham gostado do álbum novo. Eu, claro, adorei o álbum novo, está na linha dos álbuns até o Black Álbum. Mesmo eu gostando muito da fase Load/Reload e até St. Anger, eu queria ver como eles executariam as novas. Não decepcionaram, pra mim Death Magnetic é o álbum da década. That Was Just Your Life é forte e entoei ela com todo o meu pulmão, The End of the Line idem.
Ainda me lembro também da primeira música nova do Metallica que eu ouvia desde o St.Anger, ela era The Day That Never Comes. Cantar cada verso e escutar cada solo dessa música foi especial. O Morumbi estava a luz de celulares e isqueiros nesse momento.
De volta aos clássicos antigos, essa o James dedicou aos amigos do Sepultura e ela foi Sad But True, que dispensa comentários. Broken, Beat & Scarred veio em seguida de maneira excelente e precedeu o massacre que viria a seguir com One.
A introdução de One foi uma das coisas mais bonitas que já vi. Explosões pirotécnicas e fogos de artifício antes da música, ao som de tiros ao fundo. Durante a execução da música teve muita emoção, ela foi executada com perfeição “Now, the world is gone, I’m just one” Perfeita!
Na seguida veio nada menos do que Master of Puppets, que é clássico mor da banda, era petardo atrás de petardo. Foi quando veio a surpresa positiva da noite: a também clássica Blackened. A introdução dessa música é animalesca e o refrão de “fire”, esquentou o estádio inteiro com labaredas gigantescas. Era algo pirotécnico, que esquentava de fato o clima.
Durante Blackened, eu estava extasiado.
Nothing Else Matters e Enter Sandman fecharam a primeira parte antes do bis, sobre essas duas eu repito tudo o que disse sobre One. Perfeição.
São músicas que vão além da história da banda ou do metal, estão na história da música. Ver a maneira de como eles se recuperaram desde a época do St.Anger foi algo que todos queriam ver, todos esses clássicos da primeira parte foram executados com gana, com metal pulsando nas veias desses 4 indivíduos.
Todos percebiam que o James estava se sentindo de maneira excelente, a nossa reação ali era quase tão forte quanto o próprio show em si, a postura deles em cima do palco era humilde, de interação total com a platéia e isso foi percebido quando entramos no bis.
Bis que normalmente tem uma cover, uma do Kill’Em All e fecha com a poderosa Seek and Destroy. O cover escolhido da vez também me pegou de surpresa, eu jamais esperava ver Stone Cold Crazy ao vivo, com o Queen já era clássica, com o Metallica também ganhou marcas. Motorbreath foi rasteira, mas ideal pra preceder a hora de acender as luzes e preparar pro gran finale: Seek and Destroy.
Antes da música, Kirk pegou o seu celular e filmou a reação da platéia paulista, foi quando James soltou um “Kirk? What’re you doin’ man? We have guys to do that”, de maneira bem brincalhona.
Fisicamente eu já estava amassado, ficar na grade da pista da maior banda de metal da história é também sinônimo de aperto. Mesmo assim veio forças de sobra pra pular durante Seek and Destroy e ver o Metallica encerrando seu massacre de maneira apoteótica.
Aftermath
Depois do show o resultado ainda é visível: dores no corpo, costelas intocáveis, a sensação de ter sido atropelado por um bando de hipopótamos, pele toda queimada e um sono violento. Mas nada tira a sensação de ter visto de perto aqueles que tocaram as músicas da minha infância, adolescência e daí em diante.
Sabe do que mais? Metallica up your ass! Uma das frases que mais disse durante anos eu digo com gosto.
E que o Lars cumpra a promessa e não demore outros 11 anos pra voltar.
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