quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Engajamento sem critério

Muito tem se falado do famoso “engajamento virtual”, que não vem de hoje. De fato, esse ativismo de cadeira perdura desde que o Twitter atingiu o auge da sua popularidade. Passado algum tempo, as campanhas migraram para o Facebook. O grande expoente desta “febre” está no infame botão de compartilhamento, que permite que uma pessoa crie qualquer imagem e pare no perfil do outro. Uma vez que o Zuckenberg liberou o uso dessa ferramenta, as pessoas usam isso a torto e direito e claro, muitos se aproveitaram desse advento para aderir “causas”, que sabemos, vão do nada ao lugar nenhum.

Ainda dentro do assunto “compartilhar e engajar”, nos últimos dias apareceu diversas petições pedindo assinaturas para que alguma causa fosse levada adiante. Embora algumas dessas causas tivessem sua nobreza de existir, ficou claro que grande parte das pessoas estava fazendo isso apenas por fazer, sem saber de fato se alguma coisa mudaria. No caso de derrubar político, por mais que sejam sujos, seriam apenas um ou dois em meio a vários que fazem igual aos outros ou até pior. Em suma, mudam se as moscas apenas, o buraco é bem mais embaixo e definitivamente não são assinaturas que farão diferença.

A aleatoriedade dessas causas ficou ainda mais evidente quando lançaram uma petição pedindo para que o metrô funcionasse ininterruptamente. Motivo para isso? Oficialmente falando, é para que as pessoas que saem do trabalho nas madrugadas tenham como voltar para casa, mas podem ler também como “pessoas que querem beber demais na balada e que não aguentam esperar até as 04:40h para ir embora”.

Sim, eu também concordo que o sistema de transporte público paulistano é defasado ao extremo, que as opções são parcas e mal administradas e que realmente uma cidade como São Paulo deve ter meios de locomoção a todo instante. Afinal, queira ou não, muitos jogos (graças a determinação estapafúrdia da TV) acontecem quase as 22h e muitos shows acontecem em locais nos quais seria preciso tomar mais de um transporte público.

Mas metrô funcionando em tempo integral simplesmente não funciona. Se com o horário atual os problemas acontecem em demasia, sem manutenção de qualquer natureza o metrô entra em colapso em questão de dias. E como os problemas metroviários funcionam como efeito dominó, uma fagulha pequena causa uma enorme explosão. Só lembrar o que aconteceu no ano passado quando fizeram greve ou quando houve colisão de trens na linha vermelha.

No hipotético caso do metrô funcionar em tempo integral, a manutenção seria feita de dia, durante a semana e interrompendo trajetos. E definitivamente traria mais caos e irritação das quais já estamos acostumados.

Um exemplo de que manutenção no meio do dia só atrapalharia aconteceu no último domingo. Rumamos ao estádio municipal para ver mais um jogo do Palmeiras no campeonato, como de costume quando o Palmeiras joga na capital e como de praxe, o trajeto habitual envolve o metrô. Só que não contávamos que parte do trajeto do sentido oposto estava parada para manutenção na linha.

Parecia meio de semana em horário de pico, com pessoas amontoadas na plataforma e trens demorando para sair do lugar. O resultado foi inesperado para uma tarde de domingo, período no qual as pessoas usam menos o metrô.

Durante o caminho me lembrei dessas petições virtuais que pediam o metrô aberto sem parar e fiquei pensando “como seria se isso acontecesse de meio de semana”. Seria ainda pior do que todos imaginam.

Sem hipocrisia, também me incomodo quando não vejo transportes para voltar quando tem um jogo as 22h ou um show cujo local necessita de mais de um transporte público. Sou a favor de esticarem o horário do metrô em mais uma hora quando tem grandes públicos em um mesmo local, já que quem não ajuda, são os beócios que determinam os horários desses eventos. Mas 24h por dia não dá. Nem em outras megalópoles do mundo o metrô funciona em tempo integral. É utopia.

Ônibus que façam o mesmo trajeto do metrô e os normais que estejam disponíveis em menor escala já seria uma ótima pedida, já que é muito mais fácil de fazer manutenção – embora o risco de violência seja maior, afinal, estamos falando de São Paulo. É uma opção aparentemente bem mais viável do que a pedida na petição.

No fim, a imagem que fica é que as pessoas gostam de passar essa imagem de engajados e não questionam o porquê de fazerem isso, apenas fazem, sem critério algum.

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