Nunca participei de festas de halloween. Não era por causa do patriotismo barato que alguns beócios pregam – o estapafúrdio dia do Saci está ai pra atestar a palhaçada destes chatos que insistem que brasileiro não pode comemorar o halloween -, mas sim porque nunca calhou de participar de festas a respeito, seja por falta de fantasias ou simplesmente porque ninguém estava disposto a comemorar. A única participação que eu tinha nos últimos anos, era quando crianças tocavam a campainha de casa e pediam doces – nos dias de mau humor, minha vontade era de dar balas de gengibre para a pirralhada.
No final do último mês de outubro eu estava prestes a viajar e passar alguns meses fora. Sabendo que seria a última noitada antes da viagem, topei o convite de uma amiga para ir a um famoso pub na região central de São Paulo. Os pubs paulistanos são famosos por emular os tradicionais pubs irlandeses, com aquela atmosfera mais rústica e com um clima aconchegante. Esses são os lugares mais propícios para uma decoração de halloween, tanto é que no dia tinha uma promoção de cervejas para quem fosse fantasiado com alguma coisa.
Eu e minha amiga não fomos fantasiados, mas chegamos ao local e o clima era realmente de dia das bruxas: abóboras espalhadas pelos balcões, teias de aranha, funcionários devidamente maquiados e pessoas presentes com máscaras e fantasias.
E tinham muitos estrangeiros. Todos eles bêbados demais.
Depois que eu e minha amiga nos alojamos em dois bancos no bar apareceu um rapaz bêbado e eufórico. Era um indiano, comissário de bordo de uma companhia aérea inglesa e, sabe-se lá o porquê, nos escolheu para começar a dialogar.
- Hi guys, are you all right?
Minha amiga e eu nos entreolhamos com cara de “tá, vamos dialogar”. Pelo tom de voz do indivíduo conseguíamos notar que ele já tinha passado dos limites alcóolicos, mas mesmo bêbado e eufórico, ele conseguia ser cordial e por isso demonstramos boa vontade. Ajudava também o fato de ambos conseguirem falar inglês, o que pra mim foi excelente, afinal, iria para Irlanda em menos de dois dias (mas mesmo assim colocarei os diálogos seguintes em português).
De início, ele ficou surpreso com o fato de sabermos falar inglês. O que também consideramos como coincidência:
- Bom achar pessoas daqui que falam inglês também.
- Pois é. Mas e você, tá de férias por aqui?
- Não, estou com meus colegas de trabalho, estamos passando uns dias aqui e depois disso viajaremos de novo.
Compreensível. Depois descobrimos que ele era comissário de bordo e que é de praxe parar pelas cidades por dias.
- Mas e as garotas aqui? Tem muitas garotas bonitas.
Enquanto minha amiga não sabia o que dizer, eu percebia que ele estava meio fora de controle. Embora gentil, a euforia do rapaz aumentava e por mais que não estivéssemos a vontade de ajudar um cara estranho a conquistar uma mulher, ele insistia demais em relação a isso, dizendo que queria saber o que dizer em português para algumas das muitas mulheres presentes no pub.
Novamente eu e minha amiga nos entreolhamos, mas ela percebeu que eu faria algo não muito certo. Porém, não me impediu e assistiu o desenrolar.
- Olha, você é um cara determinado, escuta bem o que vou dizer.
Minha amiga me lançou um olhar ameaçador de desaprovação, mas não quis me conter.
- Você chega na menina que estiver a fim e diz o seguinte: sua linda.
- Sua linda?
- Sim, repete comigo: sua linda.
- Sua linda!
Embora saibamos que em lugares espalhados pelo Brasil esse tipo de cantada furada funcionam, ali não era hora e nem lugar para fazer aquilo que ele estava pretendendo. Mas ele estava com vontade de conhecer alguma menina, apenas deu azar de escolher um cara que não é parâmetro nenhum para seduções baratas.
Depois desse episódio, ele saiu e provavelmente deve ter tentado colocar o plano dele em prática. O resto da noite prosseguiu conforme o script e nada de anormal aconteceu, embora o assunto voltasse e nos perguntávamos qual teria sido o destino do indiano galanteador.
Horas depois ele apareceu na fila com os colegas de trabalho dele e com um semblante bem alegre – difícil dizer se era a alta quantidade de álcool nas veias ou se ele tinha conquistado alguma menina que estava perdida pelo pub, eu voto na primeira opção por razões óbvias. Acho que nem se as meninas estivessem tão bêbadas quanto o rapaz aconteceria algo.
Foi uma situação até então inédita, afinal, foi a primeira vez em anos que saímos que um cara completamente estranho para e pede conselhos amorosos. E foi em inglês ainda por cima.
Definitivamente foi um halloween bem diferente dos demais.
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