Não precisávamos de muita coisa, bastava uma bola qualquer e 4 tijolos soltos por algum lugar. De necessário, apenas os 9 passos entre um tijolo e outro para demarcar a trave e uma rápida olhada para ver se o outro lado do campo correspondia na medida. Tínhamos um campo de futebol esperando a bola rolar.
Hora de escolhermos os times. Dois garotos aleatórios se voluntariavam para realizar a montagem das equipes e um simples par ou ímpar iniciaria o processo. Um escolhia o mais baixinho e que tinha uma relativa habilidade, porém, era fominha. O outro escolhia um mais alto e forte para ganhar as jogadas na força. O que ficava por último era aquele que na última vez que jogou foi muito mal. Havia uma mistura de todos os arquétipos e todos se equivaliam quando era hora de pesar as habilidades.
Início de partida. Não cronometrávamos o tempo, o primeiro que fizesse 10 gols era o vencedor, ainda que isso pudesse demorar 10 minutos ou 1 hora, mas isso não importava muito, o tempo costumava ser nosso amigo quando tínhamos 11 anos.
As jogadas eram duras e por mais que fossemos crianças, a ideia era sempre jogarmos sério, tal como nossos ídolos faziam no futebol profissional. Tanto os chutes como as entradas eram fortes, como se estivéssemos em uma final de campeonato. E como ninguém era goleiro, havia uma espécie de acordo entre o time, no qual nos revezávamos no gol após tomarmos um. Ser goleiro era uma espécie de castigo destinado ao garoto que estivesse jogando pior em linha.
Havia também momentos no qual gritávamos um sonoro “toca essa bola”, afinal, ficávamos nervosos com jogadores fominhas, não havia espaço para egoísmo desnecessário. Ninguém estava ali para dar show e sim para vencer.
Jogávamos tão sério que não sentíamos remorso de dar bicudas potentes se fosse preciso. Não foram poucas as vezes em que nos perguntávamos quem iria buscar a bola chutada para mais longe. Geralmente sobrava para o último garoto no campo, no caso, o goleiro. Mas estava tudo bem, afinal, éramos novos e tínhamos fôlego de sobra.
Um chute de meia altura passou rente a linha imaginária que demarcava a trave e a discussão se foi gol ou não dava início. Dependendo de quem havia chutado, ele refazia o trajeto da bola com a mão e fazia um bom uso da retórica para convencer os presentes de que tinha sido gol. As testemunhas estavam ali e o impasse continuava, demorávamos minutos e as vezes não chegávamos a lugar algum. Em alguns momentos, um vencia a discussão pelo cansaço.
Tempo para uma água e recomeçamos a partida. Que horas eram? Não sabíamos, o sol já não era mais tão forte assim e a noite pedia passagem. Mas não demoraria muito para termos um vencedor na partida.
Enquanto o sol se distanciava no horizonte de maneira definitiva, tirávamos as traves de tijolo e colocávamos em qualquer canto em qualquer um dos campinhos da Vila Silvia nos quais jogamos.
O dia em que se passou esse texto? Não sei dizer, tivemos vários dias bem parecidos com esse relato. Só sei que ao acharmos 4 tijolos soltos, éramos as crianças mais felizes do universo.
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