terça-feira, 3 de junho de 2014

Uma chama ainda acesa

Se tem uma coisa que eu estava sentindo falta nesse ano, com certeza era a excitação de ouvir um álbum novo de uma banda de rock/metal que gosto muito e que ouvia com frequência no passado. Foram poucos os álbuns novos que saíram esse ano que me trouxeram músicas que me arrepiassem até a espinha, de fato, dá para contar nos dedos as vezes que isso aconteceu. A maioria das músicas "novas" que ouvi esse ano foram frutos de constantes descobertas de artistas antigos, dos mais diferentes estilos - clássico, folk, jazz, soul e muita coisa que ouvi na estação de rádio "Antena 1" (94,7FM). E essa era uma tendência vinha já de algum tempo, de 2011 à 2013 também foi assim, mas se intensificou de vez nesse ano.

Sim, gostei muito de perceber a forte suavização da minha playlist e notar que esses sons me trazem a paz que preciso e busco constantemente, mas isso não significa que eliminei o heavy metal da minha vida em definitivo. Também não nego que minha paciência com fãs do metal seja praticamente inexistente (prova que bom senso, respeito e resiliência não tem relação alguma com gênero musical) e que os canais que costumavam dar notícias do gênero hoje são um arremedo do que foram no passado, com notas nada informativas e traduções péssimas de sites estrangeiros. Para mim, a única coisa que conta é o som e ainda ouço com prazer alguma banda que gosto. Se tiver algo novo e que agrade meus ouvidos, melhor ainda.

Nesse ano em especial, não ouvi muitos álbuns do gênero, mas os que ouvi foram verdadeiras pérolas e nos parágrafos seguintes direi o porque.

Within Temptation - Hydra
Hydra é um monstro da mitologia grega com diversas cabeças e em caso de cortar uma, duas crescem no lugar. Nesse caso específico, a banda holandesa nomeou o disco de "Hydra" por trabalhar em várias frentes.

Se no álbum anterior (o maravilhoso "The Unforgiving") o Within Temptation teve uma grande ruptura ao inserir elementos como sintetizadores e mais solos de guitarra, aqui eles foram mantiveram o ritmo e foram além. Iniciaram com a marcante "Let Us Burn", a primeira música que realmente me arrepiou nesse ano e que tem letras e arranjos maravilhosos. A Sharon Del Adel, vocalista, atingiu um novo nível, algo que considerava difícil.

Outra coisa que também saltou aos olhos foram os duetos. Em dez faixas, quatro tiveram vocalistas convidados e ai notamos a variedade: Tarja Turunen (ex-Nightwish) com seu canto lírico e seu famoso background no symphonic metal fez um dueto interessante com a Sharon, algo que muitos esperaram anos para ouvir e finalmente conseguiram na música "Paradise (What About Us?)"; Howard Jones (ex-Killswitch Engage) também fez bonito na memorável Dangerous, música com uma cavalgada de riffs, versos memoráveis e uma das mais pesadas da carreira do Within Temptation; Dave Pirner (Soul Asylum) é famoso no mundo do rock alternativo e fez sucesso nos anos 90. No WT, fez o belíssimo dueto com Sharon na balada "The Whole World is Watching", música que encerrou o álbum; e Xzibit, famoso rapper americano participou de maneira interessantíssima da música "And We Run". Definitivamente foi algo inédito e sem nenhum precedente, os mais tradicionalistas podem torcer o nariz a vontade, mas achei que a participação do Xzibit funcionou perfeitamente e a música ganhou um tom memorável.

No fim, é um álbum que mostra um Within Temptation com muita lenha para queimar e com um arsenal criativo que parece não ter fim. Se já tinham lugar cativo na minha playlist desde a época do Silent Force (que saiu em 2004), a tendência é isso se manter.


Primal Fear - Delivering the Black
Teve uma época da minha vida que mais da metade da minha playlist consistia em heavy metal proveniente da Alemanha. Bandas como Edguy, Grave Digger, Rage, Blind Guardian, Accept e outras, eram quase obrigatórias em meu cotidiano. Primal Fear não era diferente e muitas músicas de álbuns anteriores me marcaram de maneira singular, especialmente do álbum "New Religion", como "Fighting the Darkness", "Everytime it Rains" e a reflexiva "The Man (That I Don't Know)", que inclusive me fez pensar muito sobre minha conduta e reavaliar aquilo que eu achava que gostava em minha vida.

Após o bom "Unbreakable" (lançado em 2012), havia uma ligeira expectativa de que o álbum subsequente mantivesse a mesma linha. E foi exatamente o que aconteceu, mas com algumas poucas diferenças notáveis.

A primeira está na faixa "One Night in December", que é a música mais bem trabalhada na história da banda e consiste em quase 9 minutos. O clima sombrio, de inverno chuvoso, dá o tom para a canção. A segunda está no peso acima do normal em faixas como "Rebel Faction" e "King for a Day".

De resto, é mais do que já vi antes, mas isso não quer dizer que isso é ruim. Nunca é demais ter mais material de qualidade e, durante os primeiros dias de fevereiro, esse foi o álbum que mais se fez presente.


Epica - The Quantum Enigma
Minha relação com a banda holandesa Epica está prestes a completar dez anos. Conheci a banda em 2005, entre os álbuns "The Phantom Agony" e "Consign to Oblivion" e, embora só o segundo álbum tenha realmente me fisgado, músicas do primeiro como "Sensorium" e "Feint" eram algumas das minhas preferidas. O interesse aumento após o pesado "The Divine Conspiracy" e culminou no complexo "Design Your Universe", álbum que até esse lançamento eu considerava o meu favorito - muito também pelo meu momento pessoal no ano em que foi lançado, em 2009. Nem mesmo o subsequente e ótimo "Requiem for the Indifferent" conseguiu fazer melhor.

Por ter atingido um patamar que eu achava difícil que fossem alcançar, minhas expectativas para o álbum "The Quantum Enigma" não era das maiores. Claro, esperava algo de muita qualidade, mas não que igualasse ou superasse "Design Your Universe".

E começaram do mesmo jeito que fizeram em todos os álbuns anteriores: introdução instrumental que precede uma segunda faixa bombástica. Mas foi o prosseguimento do álbum que me cativou de maneira definitiva. A Simone Simons entregou um excelente trabalho vocal, bem variado, indo bem tanto nas faixas mais pesadas quanto nas poucas passagens mais calmas.

Algumas músicas desse álbum eu já considero indispensáveis para a discografia: "Sense Without Sanity (The Impervious Code)" tem uma das melhores interpretações vocais que a Simone já entregou; "Unchain Utopia" tem um coro sensacional de introdução e um arranjo muito caprichado que conduz a música; "Omen - The Ghoulish Malady" me remete um pouco ao período do álbum "Consign to Oblivion" (a música "Blank Infinity", para ser mais preciso) e tem o melhor refrão do álbum e possivelmente um dos melhores na carreira; "The Fifth Guardian" é um instrumental celta diferente de tudo o que eles fizeram anteriormente e me trouxe um sentimento ótimo; e por fim temos a lenta "Canvas of Life", a música mais lenta do álbum e uma das mais bonitas da carreira.

O resultado final desse álbum é maravilhoso, achava difícil me impressionar tanto quanto em "Design Your Universe" - ainda mais em uma época onde tenho ouvido pouca coisa do gênero - mas consegui e isso é muito bom.


Wolfmother - New Crown
Essa foi uma completa surpresa. Depois de dois ótimos álbuns com o auto-intitulado "Wolfmother" (2005) e "Cosmic Egg" (2009), o próprio vocalista Andrew Stockdale anunciou que seguiria em carreira solo, dissolvendo o Wolfmother e lançando seu álbum solo em 2013 (nota mental: preciso ouvir). Fiquei um pouco chateado pela banda ter acabado com apenas dois álbuns. Se não reinventaram o rock, mostraram muita qualidade dentro da simplicidade e sujeira no som do rock australiano em tempos que as bandas de rock estavam se tornando muito assépticas.

Na surdina, sem nenhum anúncio, Andrew Stockdale voltou com o Wolfmother e lançou o álbum New Crown. E que surpresa positiva!

O álbum começa de maneira bombástica com uma das melhores músicas de rock que ouvi nos últimos tempos: "How Many Times". Não precisa de um segundo para entender que se trata de uma senhora música de rock e que praticamente faz uma homenagem aos álbuns anteriores do Wolfmother e também para as próprias inspirações da banda.

O que seguiu no álbum também merece menção. "Heavy Weight" poderia muito bem estar no álbum "Vol. 4" do Black Sabbath; "New Crown" e "Tall Ships" mais parecem homenagens para o Led Zeppelin; e "She Got It" é uma música bem direta no ponto.

Sentia muita falta de ouvir um álbum de rock and roll desse jeito e o Wolfmother foi certeiro nessa volta surpresa da banda. Andrew Stockdale mostrou que os primeiros álbuns lançados não foram meros acidentes e que ele realmente entende de rock, estando muito em forma e esbanjando criatividade.

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Se eu tenho expectativa para mais álbuns? Sim, especificamente dois e eles já tem nomes: Linkin Park com "The Hunting Party" promete fazer um álbum diferente dos últimos lançados (que foram bons dentro da proposta passada) e Judas Priest com "Redeemer of Souls". Desnecessário falar do último, trata-se de uma das minhas bandas preferidas cujo show visto em 2011 também foi um dos melhores que vi - definitivamente foi o mais completo de todos.

Estava com saudades de escrever sobre música.

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