terça-feira, 5 de agosto de 2014

Uma carta para o Marcus de 21 anos

Boa noite, Marcus Vinicius. Tudo bem ai em agosto de 2009? Não precisa responder, acho que isso não é necessário. Ao menos não para mim, sua versão cinco anos mais velha, que hoje tem 26 anos e que está escrevendo esse texto em agosto de 2014.

Sabe esse blog no qual você escreve atualmente? Então, ele continua ativo. Inclusive, será nele que colocarei essa carta para você.

Eu sei que nesse momento você está preocupado com o TCC da faculdade e um tanto desiludido quanto a sua vida amorosa. Nesses pontos lhe trago duas boas notícias: o trabalho de conclusão de curso não é esse bicho de sete cabeças todo que você visualiza e posteriormente você perceberá isso. É uma pena que você não tenha talvez a calma e resiliência necessária para administrar seu tempo nesse momento, mas ao final de novembro de 2009 você terá a boa sensação de dever cumprido - mas gostaria muito que você soubesse que você (e as pessoas ao redor) colocaram uma barreira enorme de dificuldade que não passa perto da realidade. Falando em realidade, ela é muito, mas muito mais difícil do que um trabalho de conclusão de curso.

Quanto a menina que você gosta (ou melhor: acha que gosta) nesse mês de agosto, vocês nunca ficarão juntos e sequer se verão novamente, você ainda não sabe disso, mas apesar de doer no início, você esquecerá tudo com facilidade. O máximo de contato que terão será via redes sociais, mas com o tempo você perceberá que ela é uma boa pessoa e desejará o melhor possível para ela. Ela não é culpada pela sua carência e é exatamente isso que você está sentindo no momento, não é amor. Você se apegou à alguém que nunca teve nada em comum com você porque você sempre se sentiu sozinho e tinha medo de perder algo legal que o destino quis que fosse efêmero. Você apenas tinha medo de ficar para trás. Se eu pudesse, faria com que você tocasse sua vida com mais alegria e cores nesse período no qual as memórias que tenho hoje são de noites escuras e angustiantes. Mas você esquecerá isso brevemente, fique tranquilo. Inclusive, você até terá um relacionamento um pouco mais longo, mas será no pior momento da sua vida e não te levantará.

Eu sei que você também se pergunta sobre como será a sua vida após a faculdade. Eu lhe respondo: de início, você pensará em "dar um tempo" de absolutamente tudo e se sentirá completamente sem direção durante 2010. Você irá se divertir - ou melhor, você acha que irá se divertir. Tentará fazer tudo aquilo que não fez em 2009 e sairá bastante com as pessoas para os mais diversos lugares, finalmente entrará de férias e tentará recuperar a forma física, ainda que por linhas tortas, intercalando suas noites de cerveja com uma alimentação errada que será herança dessa vida desregrada que você leva na faculdade - mas uma hora você acerta o ritmo e você passará a se alimentar melhor, evitará comer besteiras e até abandonará a cerveja do jeito que você conhece.

Embora você não admita, por mais de uma ocasião você sentirá um medo profundo de dar o próximo passo na sua vida, fazendo com que você perca a passada. Especialmente em 2010 você sentirá isso, mas em 2011 você chegará a um ponto onde finalmente rachará e começará a mudar algumas coisas. Você continuará se apegando em tudo o que deu certo no passado achando que as coisas se repetirão. Você aprenderá que as coisas não funcionam desse jeito? As duras penas, mas aprenderá. Mas precisará cair e se machucar para que isso aconteça.

Sim, você irá cair mais de uma vez. Se sentirá fragilizado e terá diversos momentos em que você gostaria de desistir de tudo, especialmente em 2013, quando você se afundará em uma depressão que parece não ter fim e que lhe tirou meses de sua vida. Mas você se lembrará que todas as quedas, todos os erros e todas as coisas que te fizeram mal foram necessárias para que você crescesse e se tornasse mais forte.

Você também se pergunta "como será o mundo", eu sei que você questiona isso. O mundo é dinâmico e muda a todo instante, mas muita coisa piora nesse período. Aos poucos, a era da "felicidade contínua e artificial" é instaurada e desencadeia uma obrigação quase que sufocante de "ser feliz" o tempo inteiro. E com o "boom" de redes sociais como o Facebook (que, em agosto de 2009, você até tem conta, mas ainda não usou direito para ver), as pessoas tentarão mostrar a todo custo que vivem em uma propaganda de margarina. Sim, você se sentirá de saco cheio até de pessoas que você considera "próxima" nesse ano. De fato, a sociedade ficará cada vez mais doente e beligerante, onde os discursos de ódio e intolerância brotarão por todos os lados, em todos os assuntos e piorará ao ponto de você não querer mais contato com quase ninguém, seja no mundo real ou na internet. Vai demorar, mas você conseguirá uma certa blindagem desses ambientes carregados de energia negativa (on e offline).

Sei que você tenta a todo custo criar uma faceta de "tudo está bem" para o mundo exterior, mas acredite, isso não funciona. Se pudesse modificar sua conduta a partir de agosto de 2009, faria com que você fosse apenas você mesmo.

Você tem medo de magoar as pessoas, mas infelizmente você magoará: tanto pelo medo de magoar quanto de maneira deliberada. Você se arrependerá e se sentirá mal, mas aprenderá com isso.

Falando assim até parece que estou dizendo que você não terá coisas boas nos seus próximos cinco anos, mas acredite: você também terá muita coisa legal.

Sabe aqueles shows de música que você lamenta não ter visto ainda? Então, você verá a maioria deles e eles serão memoráveis do jeito que você imagina. Em algum momento desses cinco anos os shows ficarão caros a ponto de você desistir dessa rotina de ir à shows grandes, mas acredite quando digo que em dois anos você verá alguns dos shows mais memoráveis de sua vida. O primeiro deles será em poucos meses de onde você está é aquele show que você espera desde a adolescência. Adivinhou? É isso mesmo, o Metallica. Mas acredito que o show mais surpreendente será aquele que você lamenta não ter ido em 2005, com Judas Priest e Whitesnake. Segunda chance para isso? Você não perderá. Em 2014 você não terá mais paciência para pistas de modo geral, mas serão boas lembranças.

Você também aprenderá muita coisa. Ainda que tardiamente, aprenderá a procurar sobre os assuntos que gosta dentro de sua área no tempo livre. Seu tempo de leitura aumentará bastante e sua sede por aprendizado será mais forte do que jamais esteve. E você estará bem mais disciplinado para isso, seu velho problema de déficit de atenção será corrigido - demorará, mas repito, antes tarde do que nunca. E descobrirá que as suas limitações de aprendizado vem de você mesmo.

Sua relação com as pessoas que você gosta mudará e em muito dos casos será para melhor. Você conhecerá pessoas novas e algumas terão papel essencial na sua vida. O laço com algumas pessoas que você gosta se fortificará com o tempo e a relação de amizade se tornará mais madura do que você imagina. Sim, você também verá algumas pessoas saindo de sua vida, mas você não irá lamentar esse fato. Você se sentirá muito feliz toda vez que for ver o brilho nos olhos de seus amigos ao contarem boas notícias ou ver o sorriso genuíno na face deles. As risadas compartilhadas serão gostosas e você guardará com carinho cada dia que você passou com cada um deles. No fim você perceberá que não precisa de um alto número de amigos, basta que estes sejam bons e que você esteja lá quando eles precisam de você.

Você verá muitos filmes, séries de TV, aproveitará diversas promoções no cinema, fará diversos programas culturais e expandirá sua mente. E você se sentirá muito bem com isso, de fato, continuará querendo conhecer mais e mais coisas, afinal, nunca paramos de aprender.

E sobre o Palmeiras? Bom, não venceremos o campeonato em 2009 (desculpa desapontá-lo, dói até hoje), passaremos aperto e chegaremos ao nosso centenário completamente esfacelados e sem esperança de melhoras. Bom, ao menos você terá algumas noites épicas em 2012 e lembrará o que é ser campeão nacional após mais de uma década. Não espere ídolos, pelo contrário, espere decepção de jogadores que você dá moral em 2009.

Devo lhe dizer que você realizará um objetivo que tem em mente já nessa época: você passará um tempo fora do Brasil, conhecerá cidades inesperadas e terá experiências que ultrapassarão seus devaneios ousados. Será maravilhoso e indescritível a sensação de se jogar em locais cuja cultura e costumes são completamente distintos do que você está acostumado. Isso não acontecerá em um estalo de dedos e você adiará a primeira data prevista, mas será muito melhor do que o primeiro plano. Acredite.

E sim, também irá demorar, mas você terá mais respeito por si próprio. Isso fará com que as pessoas passem a respeitar mais você no cotidiano. Sabe aquele escárnio no qual você se acostumou? Fique tranquilo que isso um dia acaba.

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Porém, cinco anos depois, você olhará ao redor e terá o mesmo sentimento: você se sentirá sozinho em meio a um universo de milhões de pessoas. Você continuará perdido e desesperançoso a respeito do amor. Você não terá aquela cena romântica que eu sei que você visualiza em agosto de 2009. Você continuará sem saber quando irá ter aquela paixão fulminante na qual ambos enxergam o brilho nos olhos de cada um.

Você terá a sensação de que fez muita coisa e nada ao mesmo tempo. Você se sentirá envelhecido, como se os seus vinte anos escorreram pelas mãos sem que pudesse ter feito algo. Você desejará escrever uma carta que, por algum milagre, ultrapasse a barreira do tempo e espaço para que você leia tudo o que escrevi em agosto de 2014 e faça um caminho com menos erros de percurso em diversos aspectos de sua vida, um caminho que não machucasse tanto e que não desse a sensação de que o tempo passou sem que tivesse visto.

Sei que você nunca lerá essa carta, pois o relógio não anda para trás, mas como eu queria, do fundo do meu coração, que você lesse e soubesse como as coisas estão hoje. Como eu queria, de verdade, voltar e dizer para você arriscar mais em muitos pontos e dizer para que você tenha a sabedoria de realizar correções na rota quando necessário e sem medo de errar.

Queria que você fosse mais feliz nesse mundo cada vez mais caótico, que você soubesse lidar com as pedras no caminho.

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