terça-feira, 30 de agosto de 2016

O dia que tive um teatro romano para mim

Em 28 anos de vida, fiz apenas duas viagens para fora do Brasil, sendo que uma delas aconteceu na metade deste ano. Dito isso, certamente soa pedante gerar uma alcunha de "cidadão do mundo" após duas boas jornadas que, ao menos para mim, foram bem mais do que turismo propriamente dito - a primeira vez, em especial, valeu muito mais pela vivência com uma cultura completamente nova para mim. Mas isso não impediu que acontecessem momentos em que tivesse me sentido no topo do mundo, como se eu fosse dono de tudo e nada ao mesmo tempo.

Já estava na metade da minha jornada de dez dias pela Itália quando rumei para Volterra, uma cidade medieval com acesso bem limitado e que está localizada bem no coração da Toscana. Para chegar, precisei desenhar um verdadeiro roteiro engenhoso que envolveu quatro cidades em dois dias (Siena, San Gimignano, Volterra e Pisa, antes de retornar para Cremona, cidade base), pesquisas de cronogramas de trens e ônibus e que, caso perdesse algum dos meios de transporte, provavelmente ficaria preso no centro da Itália. Felizmente, segui meu cronograma à risca e o resultado final excedeu todas as expectativas. 

Antes de Volterra, passei metade do dia anterior em San Gimignano, outra cidade medieval que me venceu como poucas outras, especialmente por seu ar rústico, suas ruas estreitas e sua gama de cores, que, combinada com o belo dia de sol que teve (em especial, o pôr-do-sol), tornou tudo muito mágico. Em meu íntimo, senti que atingi o auge da viagem no topo da colina de San Gimignano, enquanto observava as torres, completamente maravilhado com tudo. Mas o dia seguinte reservou boas surpresas.

Entre 07h e 09h30, consegui ver boa parte de Volterra, tendo passado por praticamente toda a cidade e quase todos os pontos que o cartão de turista permitia, como a cisterna romana e os museus da cidade. Antes de visitar a cidade, vi em diversos sites sobre a Toscana que havia ruínas de um teatro romano nos arredores da cidade e, de cara, foi o primeiro lugar que tentei visitar, mas o local abria somente às 10h, horário no qual retornei pontualmente.

Não estou acostumado a visitar monumentos, ruínas e lugares históricos e quando faço, sempre há um número elevado de pessoas, diminuindo a experiência e a introspecção da visita. Mas desta vez foi diferente: por 30 minutos, tive um teatro romano inteiramente só para mim.

Assim que adentrei o monumento, percebi que estava completamente sozinho, com todas aquelas ruínas à minha disposição. Antes de tirar qualquer foto, circulei o teatro em toda sua extensão e minha mente vagou como poucas vezes antes. Que tipo de espetáculos aquelas ruínas já presenciaram? Já sabia que esse padrão romano de construções era normal, mas como aconteceu essa deterioração? Isso me instigou a procurar mais coisas a respeito do assunto depois - embora não tenha achado muita coisa.

Foi uma verdadeira viagem no tempo para uma época que não vivi, pois parei de enxergar ruínas e vi um teatro completo, com pessoas chegando ao local, procurando lugares para sentar enquanto eram feitos os preparativos para o espetáculo. Imaginei que tipo de peças eram apresentadas ao público, como eles se inspiravam para criar entretenimento para a população. Na hora, imaginei um romance, talvez proibido e com ares dramáticos, mas que capturasse bem a essência italiana de amor. Vi o público completamente cativado, aplaudindo com fervor tudo aquilo que presenciavam.

Ao final da peça imaginária, vi o teatro completamente vazio, já entrando em ruínas. Ali, pensei em como tiveram a inspiração para construir essa estrutura de teatro romano, que teve sua extensão pelo resto da Europa. Na hora, minha desconfiança era de que os gregos que inspiraram esse estilo arquitetônico, mas não tive essa certeza até pesquisar mais sobre o assunto na sequência - já que a arquitetura romana, como um todo, tem grandes derivações da Grécia. Esse era o terceiro teatro romano que havia visitado (o primeiro em 2012, em Brescia, e o segundo em 2016, em Verona, dias antes de Volterra).

Aos poucos, minha mente passou a associar os modos de circulação desse teatro com os estádios atuais de futebol, que estão presentes em minha vida desde os 11 anos. Imagino que a fundação de um estádio é intrínseco ao estilo greco-romano de construção. Se hoje vou assistir jogos de futebol, devo aos que construíram teatros romanos e arenas.

Por meia hora, tive um teatro romano inteiramente para mim, onde pude ressuscitar, ainda que pela minha imaginação, um pouco da magia e entretenimento que aquela construção já teve um dia. Imagino que, mesmo em ruínas, grandes construções se tornam imortais.

Por meia hora, esse lugar esteve vivo novamente.



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