Não consigo deixar de lado o quão especial foi o período entre novembro e dezembro do ano passado. A inesperada e inesquecível viagem feita para Áustria e outros quatro países ficará para sempre na memória e, em todas as oportunidades, descrevo as histórias vividas nesses vinte dias com o máximo de paixão possível, especialmente por conta da quantidade de coisas que consegui fazer em um curto espaço de tempo. Vira e mexe, os detalhes da viagem voltam para a minha cabeça ao menor estímulo, tal como um sabor, um cheiro, um vento um pouco mais frio que bate no inverno paulistano ou uma música que ouvi enquanto estava por lá.
E nessa noite que finaliza o mês de julho, uma música em especial despertou um sentimento que tive durante cinco minutos de uma noite fria em Salzburg: solidão. Por cinco minutos, em meio a um dos melhores momentos da minha vida, me senti sozinho. A música "Lady", do Lionel Richie, em uma versão feita em dueto, foi o que despertou esta lembrança.
Viajar sozinho foi uma das melhores coisas que poderia ter feito e não me canso de repetir isso (inclusive, estou escrevendo um texto em paralelo sobre boas razões para viajar sozinho). A sensação é que cresci dois anos em vinte dias, tanto pela naturalidade demonstrada em todos os momentos, quanto por ser a culminação da coragem, que coloquei como palavra chave que guiaria minhas ações ao longo do ano. Por mais que seja introvertido, estar sozinho foi fundamental para quebrar algumas barreiras de longa data, como timidez, por exemplo.
Havia desembarcado em Salzburg, de trem, no final da tarde e fiquei completamente maravilhado. Mesmo sendo uma cidade pequena em pleno inverno e com folhas caídas. Era tudo muito bonito. Não demorei muito tempo entre o check-in no hostel e a escolha da minha cama, logo, estava na rua novamente, caminhando rumo ao centro da cidade, algo que não demorou muito, já que estou acostumado a longas caminhadas diárias por viver em São Paulo.
Por ser inverno, a noite não demorou a cair. Sozinho, continuei caminhando até chegar na parte histórica da cidade, completamente decorada com luzes natalinas. Até o final dos meus então 28 anos, foram poucas as vezes que senti o espírito natalino tomar conta de mim na fase adulta. Mas cada passo me deixava mais imerso no Natal, com corais de rua, pessoas andando juntas e sorrindo, comidas típicas e logo me tornei criança de novo, maravilhado com cada luz, cada som e cada sabor típico deste período.
Após andar bastante, cheguei na estátua de Mozart, o habitante mais ilustre da cidade. Perto da estátua, havia uma pista de patinação no gelo, com diversas crianças e casais. Parei, fiquei observando todos ali, felizes, mesmo em meio a uma brisa fria e cortante. Ao fundo, músicas tocavam e casavam bem com o clima gélido de Salzburg.
Ainda parado, começou a tocar "Lady", citada parágrafos acima. Nos primeiros acordes, reconheci a música, entendia do que se tratava e, pela primeira vez em toda a viagem, me senti sozinho. Naquele instante desejei ter alguém para abraçar, estar do lado, compartilhar a alegria de, finalmente, sentir o espírito do Natal. A cada anseio, vinha um "e se", martelando forte na minha cabeça, entendendo que mesmo tomando uma grande decisão e vivendo um momento ímpar, em algum momento sentiria o peso de ser um lobo solitário. Senti falta até de mandar uma mensagem para dizer "queria que você estivesse aqui".
A música acabou e voltei ao modo maravilhado. O resto da viagem foi uma experiência gratificante e enriquecedora em diversos níveis, mas durante cinco minutos, era apenas um homem que sentiu o peso da solidão que vem de anos.
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