Dia desses, em um dos horários de almoço, parei para tomar café apenas com meu Kindle em mãos. Sozinho, sem pensar muito, apenas pensando em absorver o conteúdo da leitura vigente. Após meia hora de leitura, fechei a capa do dispositivo e olhei brevemente pela janela, contemplando as pessoas passando na rua e desejando algum tipo de companhia para os três lugares vagos da cafeteria que tem no lounge empresarial perto do prédio onde trabalho. Por mais que adorasse meus momentos de introspecção, naquele minuto, queria falar com alguém sobre alguns pensamentos que teimavam em permanecer.
Foi apenas o tempo de fechar os olhos, em uma rápida piscada, que apareceu um adolescente, magro, com cabelos lisos escuros que vão até os ombros, de mais ou menos 17 anos. Não demorou e ele sentou em uma das três cadeiras vagas, sem cerimônia. Ele parecia meio perdido, meio revoltado, mas era alguém familiar, por isso, não hesitou em fazer perguntas, começando com uma bem pessoal.
- Você parece perdido e distante, está tudo bem com você?
Poucos entenderiam exatamente o que acontecia naquele momento. Por mais que conseguisse manter a postura intacta e estivesse feliz com muitas das coisas que estavam acontecendo, por dentro, parecia que uma tempestade estava se formando. Era um sentimento misto de euforia e preocupação.
- Não sei dizer. As coisas parecem estranhas nesse momento de vida. Estou chegando nos meus trinta anos e, às vezes, tenho a sensação de que estou andando em círculos na vida, independente do que eu faça. Sei do meu propósito, mas tem horas que me pergunto o quão disposto estou a sofrer para atingir isso. Será que disciplina e resiliência bastam para isso? Os dias ruins vão eclipsar os dias bons?
Respondi sinceramente, com o coração. Ele me olhou com cara de espanto e retrucou rapidamente, com uma expressão de horror.
- Essa vida adulta parece muito diferente daquilo que tinha em mente.
- Vai se acostumando, você terá muitos dias cinzentos em sua vida para fazer contraste com os dias bons. Mas isso é bom, afinal, de algum modo, isso fortalecerá o seu caráter. - Com diversas informações para filtrar, de fato, isso virou um mantra na minha vida.
- Mas para terminar assim? Sentado em uma mesa de café, solitário, com expressão perdida e com a voz cansada?
Ele tinha um ponto. Como explicar para um jovem de 17 anos sobre como iremos reverter um espiral negativo que compromete seu físico, mental e emocional? Esse equilíbrio é algo que se adquire com o tempo.
- Quero crer que é tudo parte do processo. Ainda estou descobrindo como otimizar todo o meu cotidiano, ainda estou procurando o meio termo para conduzir as coisas com mais tranquilidade. Um mindset não se muda em um estalo de dedos.
Mal terminei a sentença e outro rapaz sentou na mesa. Esse, um pouco mais velho, já com o cabelo curto, também magro, tinha por volta de 21 anos. Tinha uma expressão decidida, de quem sabia bem o que queria da vida, embora tivesse boas olheiras na cara.
- Cara, você parece bem e mal ao mesmo tempo, como isso é possível?
- Olha só quem fala! Você está com cara de quem está fazendo um TCC e de que perdeu alguém que gostava.
- Completamente verdade, mas ainda assim estou firme atrás de um objetivo. E dormirei o menos possível para atingir isso. - Mesmo não concordando no "como" ele estava conduzindo, compreendi.
- Te entendo.
- Você está no final dos seus vinte anos. Você não deveria estar em uma situação diferente na vida? - O tom foi de surpresa e ingenuidade. Ficou claro que as expectativas do rapaz de 21 anos eram bem diferentes da realidade que costuma se costurar ao longo do tempo. O tempo trouxe algumas das respostas para que pudesse responder com mais calma.
- Não funciona assim. Toda vez que você apressar a situação, seja qual for, sua queda será bem maior. Estou tentando ser realista com as expectativas, pensando mais no presente e não no que vai acontecer, as coisas acontecerão no tempo certo. Uma hora você aprenderá isso.
- Mas meus vinte anos serão assim? - Disse o garoto, com medo em sua voz.
- Muitas coisas boas acontecerão nessa década. Outras, bem ruins, também acontecerão. É uma boa hora para se acostumar que você nunca terá o controle das coisas que acontecem ao seu redor. Seja realista nas suas expectativas e faça seu melhor, independente do que aconteça.
Assim que o garoto de 21 anos fez cara de espanto, chegou mais uma pessoa para sentar no lugar final. Esse, já bem mais velho, tinha 25 anos. Ainda com cabelo arrepiado, mas bem mais encorpado do que os outros rapazes, parecia que tinha feito academia. Entretanto, a aparência não era muito saudável, pois ele parecia pálido e ansioso com as coisas.
- Vem cá. Como você lida com as coisas? - O tom de voz do rapaz era de desolação, negação. Dava para sentir que alguma coisa muito errada estava acontecendo com ele naquele momento.
- Demora, mas uma hora aceitamos que todas as coisas acabam. Então, vamos tirar o melhor disso, fazer com que isso se torne uma luz que guie nossos caminhos em nossos dias mais escuros. É o que me faz acordar de manhã, grato por poder lutar.
- Mas deve existir dias que você fique mal. Não é possível.
- Sim, tem dias, longos períodos às vezes, que me sinto completamente perdido. Não tenho a fórmula para ficar bem todos os dias. No máximo, consigo amenizar as dores e neutralizo o caos cotidiano através de meditações, trabalhos com respiração e outras coisas relaxantes.
- Mas isso parece apenas soluções temporárias. Você nunca vai ser feliz? - O rapaz estava em seu ponto mais baixo da vida até então, é difícil cobrar clareza em meio ao caos interno.
- Difícil dizer. Não acho mais que felicidade é algo que devemos perseguir. Não do jeito que você imagina. Não como a palavra é vendida para o mundo. A maioria das pessoas perpetua essa ideia de que devemos alcançar alguma coisa para ser feliz. Por isso te pergunto em um exemplo: você namora?
- Sim. - Respondeu com expressão de desconforto.
- Sua cara te entregou. Você procurou muito, mas não está feliz com isso. Certo?
- Sim. - O desconforto deu lugar a um tom mais desolador. Ele claramente não sabia para onde correr. Queria algo, mas não sabia o quê e nem o porquê.
- É de paz que você precisa. Você está vivendo pelas expectativas dos outros, esquecendo que, antes de tudo, você vem em primeiro lugar, você deve se respeitar. É uma armadilha difícil de escapar, ainda tropeço nisso em alguns dias, mas a verdade é que não conseguimos atingir a felicidade como uma corrida ou um checklist.
- Você não tem medo de decepcionar as pessoas? - Era cristalino o quanto ele se cobrava, isso consumia suas entranhas.
- Ainda tenho, mas menos do que antes. Novamente: tudo nessa vida termina. O fim é igual para todos. Por isso, lute para não decepcionar o próximo, mas saiba que isso, infelizmente, é inevitável. Mesmo que não seja a sua intenção.
Os três convidados da mesa fizeram silêncio. Tomei a palavra e abri de vez meu coração para os três, não pensando em mudar o curso da vida deles, mas em lembrar que as coisas mudam. Para bem ou mal.
- Escutem! Vocês não estão em pontos altos, mas queria passar essas palavras de tranquilidade. As coisas acontecerão dentro de seu tempo. Às vezes, vocês pensam que estão fazendo seu melhor, mas a verdade é que precisam repensar esse conceito sempre. É algo que também estou aprendendo. Conhecimento vem de vivência, porradas.
Continuei, com o coração falando ainda mais alto.
- Vocês sentirão muita raiva, vontade de quebrar coisas, de gritar, de fazer coisas piores. Acreditem. Vocês duvidarão de vocês. Mas em algum momento vocês voltarão a acreditar, mesmo contra todas as apostas. No fim, não são as outras pessoas que os deixam para baixo, são vocês próprios. Vocês saberão disso um dia. Como disse, tudo no seu tempo.
Eles sorriram e me disseram que tudo ficaria bem. Na medida que eles desapareceram, acreditei neles, afinal, aprendi muito com eles ao longo dessa jornada. Quem melhor do que minhas versões da adolescência e juventude para saber que as coisas mudam de verdade? Talvez não possa dizer para eles o que fazer, mas eles podem me lembrar do que aconteceu para que possa moldar coisas boas no futuro.
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