segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Matéria Escura e realidades paralelas


É a grande beleza da juventude. A ausência de peso que tudo a permeia porque ainda não houve nenhuma escolha errada, nenhum caminho tomado, e a estrada que se bifurca num ponto adiante é cheia de puras e ilimitadas possibilidades.

Fiquei dias pensando com afinco sobre o trecho acima, retirado do livro "Matéria Escura", de Blake Crouch. A primeira obra que finalizei nesse ano.

A história em questão fala de Jason Dessen, um professor universitário de uma instituição de médio porte, casado e com um filho adolescente. Logo de cara é possível perceber que o protagonista, apesar de feliz, questiona sobre algumas escolhas do passado, fazendo a pergunta que todos fazemos em algum ponto da vida ao refletir sobre decisões importantes: e se? Neste caso, Jason tinha tudo para ser um cientista premiado e estava no caminho para isso, no entanto, viu sua vida tomar outro rumo.

Feita essa introdução, eis que o livro mergulha de cabeça na ficção científica. O protagonista é raptado por alguém que o conhece de modo íntimo, antecipando todos seus passos, sendo levado para um galpão, onde é sedado. Ao acordar, Jason se encontra em uma realidade paralela em que é um cientista premiado e bem sucedido. A partir daí, o livro brinca muito com a questão de física e realidades alternativas que são formadas a partir de nossas escolhas. E foi aí que o protagonista conseguiu acessar diversos mundos por conta de escolhas do subconsciente, com medos e desejos que estavam bem escondidos.

O que mais me chamou a atenção foi a construção de personalidade baseada nas escolhas feitas ao longo da vida. Em uma realidade paralela, Jason se torna muito mais cruel e calculista. E isso me fez voltar para a minha realidade. Depois disso, me peguei imaginando realidades alternativas construídas com as minhas escolhas.

E se, durante meus tempos de colégio, decidisse trilhar o curso de direito, como cogitei em algum momento da história? Hoje teríamos um Marcus que talvez fosse advogado sênior em algum escritório grande, workaholic, morando sozinho, com um apartamento cheio de livros falando sobre direito tributário. Conhecendo minha personalidade de então, provavelmente forçaria ainda mais a barra em tentar ser uma pessoa que não sou e a probabilidade seria de viver artificialmente até entrar em colapso. Talvez essa realidade paralela exista e tem um Marcus muito expert em ICMS e quetais.

Ou mesmo TI, como era a escolha principal entre meus 13 e 16 anos? Será que hoje estaria programando para smartphones? E se eu aprendesse a tocar violino? Como seria se eu soubesse andar de skate? Se eu me aplicasse, talvez já estivesse falando italiano fluente antes dos 25 anos? E se eu tivesse um insight de como o mundo digital evoluiria?

Talvez, se impusesse minha personalidade atual lá atrás, nos tempos de colégio, como estaria hoje? Teria perdido tanto tempo tentando me encaixar no mundo e esquecendo das prioridades e de me sentir bem? Essas escolhas me fariam uma pessoa mais completa no presente? Não tenho como saber. E não tenho como voltar atrás para refazer tudo isso, como no filme "Efeito Borboleta", mudando todo o curso da história.

A verdade é que toda grande escolha molda nossa personalidade. Faz parte de nossa construção enquanto pessoas. Todas as escolhas e consequências da minha vida me trouxeram ao ponto onde estou hoje: um designer de quase 31 anos, começando a obter respeito na profissão, que hoje entende a importância da saúde mental, tenta aprender coisas novas todos os dias, pegou gosto por viajar e se apaixonou por uma pessoa maravilhosa, redescobrindo o significado da palavra amor. Mesmo com todas as coisas do passado, por uma forte depressão que ainda batalho, com uma mágoa que moldou minha vida adulta, com problemas de aproximação e com memórias que gostaria de apagar, não sei se faria escolhas diferentes. O fato é que hoje, com tudo isso, me sinto extremamente grato pelo meu presente. E sei que a estrada ainda terá bifurcações e possibilidades ilimitadas, criando inúmeras dimensões paralelas onde outro Marcus fará coisas diferentes.

Esse livro, sendo uma ficção científica das boas, me fez pensar muito sobre escolhas, culpa, consequências de nossas escolhas, construção de personalidade e reflexões sobre o passado. Sim, pensei muito sobre tudo o que me trouxe até o momento atual e cada vez mais concluo que a vida não é uma corrida em que temos que fazer as coisas no tempo que a sociedade determina - algo que felizmente vem desaparecendo na medida em que todos que conheço também não têm vidas perfeitas e cada um têm suas agruras.

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