Um dos efeitos colaterais desse período foi a insônia, que me assolou por alguns dias. Não conseguia dormir direito ou de vez. Muitas vezes religava série para assistir no meio da madrugada só para tentar pegar no sono novamente, mas às vezes nem isso adiantava.
No despertar de um dos piores dias da minha vida, estava extremamente inquieto, andando de um lado para o outro, quando percebi que deveria me movimentar mais, do jeito que fazia antes em situações similares de tristeza: andar sem parar até cansar, deixar o oxigênio entrar em meu pulmão. Por puro impulso, quando me vi, já estava na Estação Jardim São Paulo, muito mais perto de ir para um ponto de São Paulo que ainda não tinha explorado: o Horto Florestal. Desde 2017 que tenho o interesse de percorrer a trilha de subida para chegar no Núcleo Pedra Grande, cuja vista para a cidade de São Paulo é muito linda, mesclando a natureza com toda a questão cosmopolita.
Caminhei bastante. O combo "dia de sol e áreas verdes" certamente me ajudou muito no processo de acalmar minha alma, liberando serotonina e me fazendo querer seguir em frente até chegar no destino final, como se estivesse fazendo uma trilha mesmo. Muitas pessoas ao meu redor faziam o mesmo. De fato, fiquei bem feliz ao ver grupos de pessoas, famílias e senhores de idade percorrendo toda a extensão de 6km, contando ida e volta.
Cheguei exausto fisicamente, mas contente em estar ali em cima, vendo minha cidade do alto de um jeito que ainda não tinha experimentado. São Paulo é enorme, mas ali de cima tudo parecia menor, como se estivesse jogando Sim City. Fiquei pensando em quantas pessoas tinham ali no meio, que tipo de coisas elas estavam fazendo. Se ainda estavam dormindo, tomando café da manhã, escrevendo, brincando com seus filhos no parque ou qualquer outra possibilidade de atividade em uma cidade gigantesca.
São Paulo do alto. Tudo parece pequeno.
Meu traje, de calça jeans e all-star nem era o ideal para fazer essa trilha (novamente, escolha por impulso) e o sol queimava mesmo, pois a pedra estava bem quente. Com o tempo, deixei apenas meus sentimentos fluírem, independente de quais fossem. Enquanto isso, pessoas iam e passavam ali na pedra, seja fazendo piquenique, tirando fotos ou apenas parando para observar todo aquele panorama raro.
Entre as pessoas que circulavam, tinha um grupo de trilhas que estava ali, sorrindo bastante e conversando animadamente entre si. Era a minha antítese: sozinho, triste e absorvendo tudo o que estava acontecendo. Ouvi eles conversando sobre como tinha a possibilidade de ver o mar dali, até que um impulso me fez interrompê-los.
- Desculpa, mas acho que não dá para ver o mar daqui. Trabalho numa região de São Paulo relativamente alta e o máximo que conseguimos ver dali são as represas da Zona Sul. Se alguém viu água, talvez seja isso.
- É, você tem razão, provavelmente são as represas, não tem como ser a Serra do Mar daqui. Aquilo ali é o Pico do Jaraguá?
E a conversa pequena se desenrolou até eles resolverem ir para um local de sombra, em uma espécie de quintal. Fui junto porque tinha ficado tempo demais no sol e começava a sentir minha pele esquentando demais sem qualquer tipo de proteção solar.
Na sombra, me sentei junto ao grupo. Visivelmente triste, ainda tentei disfarçar e fiz uma coisa que não costumo fazer nunca: socializar. De cara, fiz um elogio pela energia deles e perguntei:
- Vocês são um grupo de trilha?
- Sim sim, mas não apenas de trilhas. Somos de uma igreja e essa é uma das nossas atividades.
Fiquei feliz em saber que a igreja que eles frequentam promove essas atitudes saudáveis, mesmo que eu não tenha interesse em ser membro no futuro, por questões de fé pessoal e discordância completa de muitos dogmas.
- Você pratica esportes? Podemos te colocar no nosso grupo de WhatsApp.
- Pratico sim. Gosto muito de corridas de rua. Sempre que tenho a oportunidade, faço uma prova. Especialmente as noturnas. - Feliz com o diálogo, mas desconversei sobre o grupo, afinal, não me sentia bem de entrar em um grupo de telefone com vários desconhecidos, apesar de gentis.
E não tinha como evitar meu semblante. Era visível que as coisas não estavam certas comigo. Por isso, uma moça na casa dos seus cinquenta chamada Miriam me interpelou:
- Está tudo bem? Você não parece bem.
- Não estou mesmo. Tive uma desilusão muito grande nesses dias e ainda não estou sabendo lidar com isso. - Respondi meio de lado, tentando esconder as lágrimas atrás dos óculos escuros.
- Ei, vai ficar tudo bem. As coisas aconteceram desse jeito porque Deus tem um propósito para você. As coisas mudam mesmo, temos que saber lidar com as mudanças que vão contra nossa vontade e aceitar que não temos controle de nada.
Isso me surpreendeu. Teve uma pitada de religião sim, mas reacendeu antigos tópicos adormecidos na minha cabeça, como propósitos, lidar com o imponderável, recomeços e a coragem que precisamos para encarar esse desconforto de frente.- Verdade, as coisas mudam mesmo. Talvez isso seja necessário para sairmos de nossa zona de conforto e recomeçar.
Isso me restaurou um pouco da fé no ser humano. Em tempos difíceis em que as pessoas estão cada vez mais agressivas e sem empatia, fiquei muito feliz ao ver gente tratando um desconhecido qualquer com carinho.
Fiquei um tempinho com eles, perguntei mais sobre os esportes que eles praticavam, se faziam mais trilhas além da cidade de São Paulo, entre outros assuntos. No fim, até pediram para que eu participasse da selfie deles, mas achei muito cedo para isso e desconversei sobre. Agradeci muito todos eles pela conversa e por ter me ajudado ali em um momento particularmente difícil.
A descida de volta foi bem mais leve. Ao lembrar da vista de São Paulo dali de cima, lembrei que a cidade é enorme e uma fonte inesgotável de recomeços. Lembrei dessas pessoas ótimas que ajudaram um desconhecido e das palavras que reacenderam um fogo apagado dentro de mim. E isso me deixou mais vivo.

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