Até meus oito anos, achava que os países eram ilhas completamente separadas, como se precisássemos usar avião para fazer absolutamente tudo. A segunda parte não errei, mas fiquei maravilhado ao ver um globo terrestre pela primeira vez, no colégio onde estudava.
"Então o mundo é assim?"
Por mais que me encaixasse no esteriótipo de criança "convencional dos anos 90" em assuntos como jogar futebol na rua com outros moleques, brincar pelo bairro e afins, ver o globo terrestre foi a faísca inicial para ficar fascinado com mapas, questões de geolocalização e com outros países - especialmente após as olimpíadas, que apresentou diversas bandeiras diferentes, outras línguas e muitas notícias sobre geolocalização. Sentia que o mundo era enorme e que tinha muita coisa para se ver. De fato, adorava até mesmo fazer caminhos diferentes quando estávamos de carro, conhecendo outros bairros em São Paulo - sério, cheguei a comemorar por passar de carro na Radial Leste na região da Vila Matilde. Sempre pedia para meu pai ou avô dar uma volta a mais para ver outras localizações. Não entendia bem o porquê, apenas gostava.
As pessoas estranhavam muito - e quem me conhece dessa época ainda usa um tom de "esquisitice" ao lembrar do quanto gostava disso. Já nessa época conseguia perceber um misto de fascínio com perturbação no semblante dos professores e colegas de sala. E isso porque estávamos no primário. De fato, sentia até que meus pais estranhavam tudo isso, mas como tentar entender o que se passa na cabeça de uma criança entre oito e dez anos? Óbvio, eu também não fazia ideia do porquê disso tudo, sequer procurava por explicações.
Esse gosto peculiar teve sua extensão em outras mídias, como videogames. Na adolescência e já com os gráficos de videogame avançando de modo veloz, vi a ascensão dos jogos de mundo aberto, desses que poderíamos explorar novos cantos em um universo fictício. Jogos como Driver, Grand Theft Auto, Chrono Cross, Final Fantasy e Pokemon me atraíram muito pelos seus mapas enormes e possibilidade de ver coisas novas. Na fase adulta e depois de um grande hiato dos jogos, a série Assassin's Creed se tornou uma das minhas favoritas por conta dessa exploração ampla dentro das cidades - com o adendo de acrescentar história real do mundo.
E a partir da segunda metade da década dos meus 20, passei a viajar pelo mundo sempre que tinha alguma possibilidade em meio ao cotidiano, obrigações e responsabilidades da vida adulta. Esses momentos foram alguns dos melhores que tive na minha vida.
Agora em abril, passei na frente de uma loja de shopping que tinha um globo terrestre na vitrine e todas as memórias vieram. Após viajar para alguns países e ter a certeza de que quero conhecer muitos outros durante a minha jornada, finalmente entendi o porquê de gostar tanto disso desde os meus oito anos. Cada lugar novo me traz um brilho diferente nos olhos e um frio na barriga bem característico, cada prato diferente me desperta uma alegria. Cada monumento diferente me faz pensar no porquê de estar ali. Cada rua em um país novo me faz pensar na vida cotidiana que as pessoas locais levam, se elas também ficariam fascinadas ao andar por uma rua qualquer na Zona Leste de São Paulo - assim como fiquei ao andar pela Radial Leste na altura da Vila Matilde, por exemplo.
Olhando para trás, hoje não me arrependo de ser "esquisito" nesse ponto. Tudo faz mais sentido sobre como não meço esforços para conhecer novos lugares. E assim será até o dia em que eu parar de respirar.
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