sexta-feira, 3 de maio de 2019

Quem liga se mais uma luz se apaga?

No momento em que volto para casa em uma noite de quinta-feira pós feriado, olho diversas pessoas no vagão do metrô da Linha 3 Vermelha, perto da estação Belém, enquanto ouço a música "One More Light", do Linkin Park. Em dois minutos provavelmente já terei esquecido a fisionomia de todos os que ali circulam, mas não pude deixar de observar. Diversas pessoas, várias histórias vivas indo em direção às suas casas, ou encontrar alguém querido. Naquele instante me dei conta do quão rica é a história de cada pessoa ali no vagão. Mas será que elas estavam contando isso para alguém, escrevendo ou apenas deixando que os dias os engulam sem piedade?

Minha cabeça viajou. Mesmo sem que eles estejam cientes, as histórias deles estão sendo escritas a cada minuto, em cada movimento do vagão do metrô, no desembarque pelo lado esquerdo de alguma estação, na condução seguinte e por aí vai. Para mim elas viraram borrões, mas para alguém eles são talvez as pessoas mais importantes do mundo. São luzes que iluminam a vida de alguém.

É que hoje vivemos em um piloto automático tão grande que qualquer pessoa estranharia se fosse interpelada por um estranho, mas no que dependesse de mim, provavelmente sentaria para conversar com cada uma dessas pessoas para saber como foi o dia, o que fez parte da jornada e quais são os planos para o dia seguinte. Queria entender que tipo de marca eles gostariam de deixar no mundo, na vida de alguém próximo ou mesmo que ainda venha a conhecer. Quando vi um casal de idosos conversando, queria entender o que os levou até ali, naquele momento.

O mundo às vezes é tão pequeno e cruel que criamos essa casca de indiferença com as pessoas que passam por nós. Ficamos completamente absortos, imersos em nossos mundinhos. Nunca paramos para perceber como uma jornada de alguém comum pode nos inspirar, nos emocionar ou nos fazer refletir sobre as nossas vidas. Pelo contrário, várias luzes se apagam e sequer percebemos. Muitas histórias deixam de serem escritas e ficamos sem ter a possibilidade de descobrir algo novo, mesmo que por acidente.

Quem liga se mais uma luz se apaga? Acredite, eu ligo. E muitos outros também.

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