Alguns meses após o episódio "da lama ao caos, do caos à lama", o Metallica veio para o Brasil após 11 anos de ausência no país. Da minha parte, seria a primeira chance de ver os meus maiores heróis da música, que se fizeram presentes na infância, adolescência e continuavam fortes no início da minha fase adulta - era para ser em 2003, mas os mesmos cancelaram a vinda. O show veio em um momento ímpar da minha vida, pois tinha acabado de me formar na faculdade. Com 21 anos e ainda sem saber direito o que fazer na sequência, apenas quis me presentear após anos estudando sem parar, tanto que considerei essa ida ao show uma espécie de "presente de formatura". Foi uma noite inesquecível, emocionante em nível pessoal e que marcou muito o início dos meus vinte anos.
Anos depois, o Lollapalooza realizou a primeira edição no Brasil. Nunca me interessei pelo festival, salvo algumas atrações isoladas. Mesmo assim, nas poucas vezes que me interessei de fato por algum grupo (ex: Muse em 2014), o momento de vida sequer me fazia cogitar a hipótese de estar presente. De fato, construí uma imagem do festival bem negativa, sempre pensando e verbalizando coisas como "não é para mim, não gosto do estilo de festival e nunca vou lá". Que bom que isso também não durou para sempre.
Pois o tempo passou, a década dos meus vinte chegou na volta final. Aquele garoto recém-formado de 21 anos é uma mera lembrança e muita coisa aconteceu nesse intervalo de quase oito anos. Mudança de opinião e coração são algumas dessas coisas, assim como a própria vida, que teve suas trocas de rotas no caminho.
Já de volta aos estudos e com uma carteira de estudante nova, decidi apenas nesta semana que iria ao Lollapalooza para ver o Metallica pela segunda vez. Claro, chequei no site se os ingressos de meia entrada estavam disponíveis. Uma vez que vi que estavam, rumei para o Citibank Hall, tomei sol na fila e arruinei meu horário de almoço, mas garanti minha ida ao festival.
Com 21 anos, você chega cedo, pega fila e passa o dia inteiro na base de junk food, até ser esmagado e você comemorar não ter nenhum tipo de desidratação. Beirando os 30, não existe a menor possibilidade do organismo processar tanto descalabro, por isso, fiz o que faço todo sábado: café da manhã reforçado, academia, comida pós-treino e almoço reforçado. No caminho, ainda comprei barras de cereais e proteínas, que se não são o mundo ideal, cumpriram bem o papel de suprir qualquer tipo de fome, uma vez que as comi em horários estratégicos - de fato, só senti fome no caminho de volta, após a meia noite. Essas diferenças pesaram muito na experiência do show, já que tenho minha cota de ver bandas em situações de extremo aperto.
Diferente das outras vezes, cujo clima pré-show vinha de dias, desta vez só senti aquela sensação quando passei da estação Granja Julieta, da CPTM, por volta das 15h. Ali, finalmente o frio na barriga se fez presente e voltei a me sentir o mesmo garoto de 21 anos que se presenteou após terminar a graduação. Desta vez, me presenteei justamente por voltar a estudar, estando em uma pós-graduação, como se um círculo fechado estivesse abrindo novamente.
Mas foi no momento que desci na estação Autódromo que senti uma diferença brutal em relação aos shows anteriores: estava indo à um festival cuja faixa etária é muito abaixo da minha. Não importa se ainda pareço ter menos idade do que realmente tenho, o sentimento ali foi de ser um tio em meio a um mar de adolescentes. Essa sensação só se dissipou no show do Metallica, cuja faixa etária é mais diversificada e conta com fãs de longa data, que provavelmente viram até a turnê do Black Album.
Ao contrário de 2009, cujo panorama foi de lama até o fim, o que vi desta vez foi um festival gigantesco, com diversos cenários, estandes, palcos e uma variação enorme de pessoas. Curioso, circulei por grande parte do festival e vi quatros grupos diferentes até decidir ver Rancid e ficar por lá de vez para esperar o Metallica. Fiquei impressionado com o cuidado que tiveram para proporcionar um grande espetáculo para todos ali. Os detalhes fizeram a diferença para que mudasse de vez minha opinião sobre este festival e até mesmo sobre a escolha do Autódromo.
Mas não importava o quão maravilhado e jovem estava me sentindo enquanto circulava pelo festival - mesmo me sentindo um tio -, o que realmente contava era aquele grupo de heróis que fizeram um show marcante no início dos meus 20. Eles também envelheceram, mas o peso, a qualidade e a fúria, ainda estavam lá e isso ficou claro como água ao ver eles emendando duas músicas do novo álbum na abertura do show. Particularmente, adorei o álbum "Hardwired...to Self-Destruct", compensou os anos de espera por material novo com diversas pancadas sonoras. Para completar, as minhas duas músicas preferidas do álbum estavam no show: "Atlas, Rise!" e a maravilhosa "Halo on Fire".
O público não tinha o mesmo ímpeto de 2010, talvez por ser um festival com mais variação ou porque hoje as pessoas vibram menos com o advento dos smartphones, mas ainda assim foi possível ver as pessoas pulando em clássicos como "For Whom the Bell Tolls", "Sad But True" e "Whiplash" (que grata surpresa!). No cunho pessoal, perdi a voz de emoção na hora que tocou "The Unforgiven" e "The Memory Remains", esta última, música do execrado Reload, mas que tem um significado bem forte na minha vida, uma vez que escuto desde criança.
Passado e presente se encontrando
O show ainda contou com outros grandes clássicos que exigiram muito do meu pulmão: "One", "Master of Puppets", "Battery", "Seek and Destroy" e "Nothing Else Matters". A sensação final foi de que presenciei outro momento histórico no heavy metal de São Paulo, mesmo acontecendo em um festival cujo intuito é a variação de estilos musicais. A volta para casa foi bem mais tranquila do que em 2009, sendo que não tive nenhum susto em relação ao transporte público desta vez.
Não dá para comparar com o show que aconteceu no início de 2010. Eu e a banda envelhecemos, além de também ver esse show por outra ótica, com outra cabeça e vivendo outro momento de vida. Tudo está bem diferente de antes e isso faz tudo ser melhor ainda, pois percebi que, em algumas coisas, a essência permaneceu intacta. Eles ainda continuam meus heróis, fizeram com que as histórias do passado se cruzassem no presente e virassem uma nova, completamente diferente. Hoje não tenho como celebrar com meus heróis imaginando como será o resto dos meus vinte anos, mas posso muito bem ter um momento de apoteose com eles no encerramento dessa década.
E é por isso que a noite de 25 de março será inesquecível!

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