domingo, 19 de março de 2017

Bratislava e a cerveja ruim

No início de novembro do ano passado, surpreendi meus amigos mais próximos quando defini que viajaria para a Europa pela segunda vez no ano - a primeira tinha sido em junho, quando fui para a Itália. Sem muito alarde, quando menos percebi, já estava maravilhado em Viena, observando, atônito, todos os detalhes possíveis de uma cidade clássica. Era apenas o início de uma jornada inesquecível, que durou até o primeiro terço de dezembro e que se expandiu para cinco países no total.

A Eslováquia foi um dos cinco países visitados, mas a minha ida para esse país foi definida apenas quando já estava em Viena. Já tinha pesquisado sobre como ir para Bratislava, a capital, antes da viagem. A distância era pouca, então, não foi problema deixar para comprar a passagem de trem ali mesmo.

Bratislava me deu um susto logo de cara, afinal, a estação de trem tem cheiro de churros de canela. Pois é, a minha impressão inicial da cidade foi essa. O tempo cinzento e a arquitetura simples do caminho apenas me fazia ter a ideia de que estava circulando por algum bairro de São Paulo que tem placas em eslovaco. Ainda assim, não conseguia tirar da cabeça coisas como "puta merda, estou na Eslováquia". Queiram ou não, estar em outro país é algo que mexe com a cabeça, ainda mais um que é bem diferente do que estamos acostumados.

As placas em eslovaco não ajudavam muito na hora de se locomover, mas consegui chegar ao centro histórico da cidade com uma relativa facilidade (ajudou ter olhado mapas na noite anterior). Estando no centro, minha impressão da cidade mudou e logo passei a enxergar um charme em tudo que olhava por ali, desde os doces típicos, passando pela população em si até a vastidão do Rio Danúbio. Foi uma manhã muito gostosa, que culminou na visita ao castelo de Bratislava, onde visualizei toda a cidade bem do alto e ainda trombei com um grupo de turistas cuja língua não consegui compreender, mas quase saí nas fotos em grupo deles.

Castelo de Bratislava. O tempo estava bem cinzento.

Uma vez que desci do castelo e voltei para o centro histórico, pensei que era uma boa ideia parar para tomar cerveja em algum pub local. Sondei, parei em cada cardápio de fora para ver o preço de uma pint de chopp, até finalmente achar um que dizia alguma coisa (não me peçam para lembrar eslovaco) por dois euros. Entrei e, para a minha surpresa, o pub estava vazio, mesmo com o preço convidativo. Isso não me impediu de pedir o chopp, praticamente por sinais. A expectativa era grande, mas ai veio o primeiro gole.

Que decepção!

Era muito ruim, um amargor tomou conta da minha boca, tinha gosto de arrependimento. Como era a única pessoa do pub, imaginei que seria rude simplesmente deixar o chopp ali e ir embora, mas fui até o fim, "saboreando" cada golada quadrada, enquanto passava algum programa esportivo em eslovaco na TV local. O bartender me olhava com aquela cara de "coitado", provavelmente sabia que tinha vendido uma cerveja muito ruim, mas não falou muita coisa (em eslovaco, nem se fizesse discurso ajudaria). Além de ruim, tinha um teor alcoólico mais forte do que o normal, complicando o jogo aos 35 minutos do segundo tempo - teria que voltar para a estação em mais ou menos uma hora e estava começando a ficar "alegrinho".

Quando terminei e saí do pub, me senti bem desorientado. Meu primeiro pensamento foi "lascou-se, estou ficando bêbado na Eslováquia". De noite teria um espetáculo para assistir na Ópera Estatal de Viena, a última coisa que eu queria era ficar preso em uma cidade em que quase ninguém falava inglês.

Pub vazio. I should've seen it coming...

Felizmente, refiz todo meu caminho de ida e voltei para Viena sem sustos, mas ficou na cabeça o fato de ter tomado a pior cerveja, não só da viagem, mas provavelmente da vida - e isso vem de um cara que tomava cervejas baratas em estacionamentos fuleiros perto da faculdade. Durante toda a viagem, bebi chopps e cervejas acima da média na Áustria, Alemanha, Holanda e Bélgica. Na Eslováquia, apenas a pior de todas.

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