Ser observador é conseguir captar bem as diversas nuances dos ambientes que nos cercam, especialmente no cotidiano. Isso gera inspirações para desenvolver diversas coisas, perceber comportamentos e conhecer o mundo de modo geral. O outro lado da moeda em ser observador é que isso, especialmente em épocas de reflexões, gera um impacto forte em mim, especialmente por conta de ser alguém predominantemente introspectivo.
Era para ser apenas uma segunda cuja volta para casa seria guiada no piloto automático, com alguma leitura ou absorvendo algum conteúdo de podcast, cujo tema geralmente está ligado no shuffle. Mas antes de ir para o metrô, por alguma razão ou força da natureza desconhecida, decidi passar na FNAC mais próxima de onde trabalho. Logo na entrada, onde tem uma TV e Blu-ray de algum show passando, a música "Wonderful Tonight", de Eric Clapton, tocava com um volume audível suficiente para me atrair para dentro e iniciar uma jornada de cinco minutos que se estendeu por uma viagem de volta completa.
Eu adoro essa música. Ela é bonita, sutil e a guitarra suave faz uma combinação dourada com a voz bonita de Clapton. Mas ela é uma música para duas pessoas. É uma canção que eu adoraria dedicar para uma pessoa que provavelmente não conheço. E esse pensamento foi o gatilho para que uma correnteza de pensamentos semelhantes. Não encaro como coincidência o fato de essa ser a música tocando enquanto entrava na loja.
Por mais que fosse um ambiente cercado de revistas, livros e promoções, uma coisa me chamou a atenção: uma mulher sentada na frente da TV da FNAC, parada e assistindo o show com uma atenção incomum. Como registro externo dessa memória, guardo a fração de segundo que vi a feição dela, com cabelos pretos e bonita, assim como muitas mulheres que circulam nesse planeta. Me perguntei, ainda que por alguns segundos, se ela estava ali porque era fã de Clapton ou porque, assim como eu, lamentava cantar sozinha um som feito para dois. Nunca saberei a resposta, mas espero que ela já tenha esse alguém que cante o quão maravilhosa ela está nesta noite.
Assim que a música acabou veio a realidade, saí da loja e refleti sobre meus quase 28 anos de relacionamentos. Por anos, observei o comportamento de amigos e pessoas próximas nesse âmbito, vi histórias bonitas nascerem, lamentei o fim de histórias outrora lindas e todos os dias noto essas sutilezas do amor por onde passo, como sorrisos simples, mãos dadas e mesmo tons de vozes que denotam certo carinho. Por mais que tivesse relacionamentos na vida, todos eles tiveram suas razões para não progredir. Não importa o que tenha acontecido antes, me senti na estaca zero e completamente sozinho, assim como em diversos dias do ano. Por mais que estar só fosse necessário durante diferentes períodos da vida, refleti sobre como a timidez foi uma barreira forte, como a pressão externa atrapalhou durante anos e como fui, e ainda sou, meu pior inimigo.
Também criei conjecturas sobre coisas que senti vontade de dizer para a única pessoa que realmente senti algo a mais nesse ano, depois de muito tempo no mais puro vazio em relação a interesses de modo geral. Tive até a ideia de tentar novamente, apenas para materializar a minha parte. Mesmo que não tenha ido para frente, ainda sou grato por ela ter aparecido em minha vida por simplesmente despertar algo que estava hibernando em meu âmago.
No fim do caminho para casa, ainda com a música na cabeça e com a introspeção de final de ano se misturando com esses pensamentos não muito felizes, percebi que o ano em si foi bom, com diversos avanços e muitas novidades boas. Foi longe de ser perfeito, tive minhas crises, alguns reflexos do passado ainda me assombraram e, por algumas vezes, parecia ter esquecido o que realmente me faz funcionar melhor. Entretanto, foi o ano que mais me senti conectado com a realidade e foi infinitamente melhor que os dois anos anteriores.
Mas faltou alguém para que pudesse dizer o quão linda ela estava naquela noite, que olhasse nos meus olhos e fosse recíproca. Não sei o que será do ano de 2016, mas eu sinto que esse momento chegará logo e será do jeito que Clapton compôs: bonito, sutil e simples.
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