David Bowie, um dos músicos mais icônicos da história, talvez não imaginasse o potencial da canção "Heroes" quando a escreveu. Ela nos inspira a sermos heróis, ainda que seja por um dia, por algum momento glorioso. Obviamente, a música se tornou um hino para diversas situações onde pessoas sentem que salvaram o dia, isso sem contar a quantidade de vezes que a música se tornou trilha sonora de filmes - no mais recente, "The Perks of Being a Wallflower", foi peça chave no desenvolvimento da história.
Na noite de quarta-feira, 02 de dezembro, vi o Palmeiras ser campeão dentro de nossa casa, o Allianz Parque, após três anos no qual descemos fundo em nosso inferno astral - e quando digo nós, entrelaço a minha vida com o Palmeiras, pois nesse período também estive com infinitos problemas particulares. Após diminuir a adrenalina e finalmente raciocinar com calma, peço permissão para o querido Ziggy Stardust para que também possa dizer que "podemos ser heróis", ainda que por um dia. No meu caso e no caso de muitos amigos e conhecidos, foram diversos dias e noites que fomos heróis.
Meses após vencermos a Copa do Brasil em 2012, nosso direito de terminar o ano com a sensação de "saldo positivo" foi tolhido, graças ao rebaixamento humilhante no Brasileiro do mesmo ano. Nessa época estava fora do Brasil, realizando meu intercâmbio e prometi para mim mesmo que, na volta, iria acompanhar cada passo do ressurgimento desse gigante alviverde. Para mim, o título do dia 02 de dezembro de 2015 começou ali, no momento que beijei o escudo do Palmeiras a um mar de distância e na primeira vez que pisei na arquibancada após a queda: empate insosso contra o fraco Bragantino, na estreia do Paulista de 2013.
O início dessa jornada, porém, foi sombrio - assim como todo o ano de 2013 para mim. No início do primeiro semestre de 2013, as arquibancadas pareciam cidades fantasmas, apenas uma sombra distante dos períodos gloriosos, que só foi melhorar um pouco em fevereiro e em alguns jogos isolados - todos da Libertadores. Estive presente na maioria dos jogos do primeiro semestre, mas, paralelamente, minha vida caía aos pedaços por conta de uma depressão que se agravava com uma rapidez diária (um texto sobre isso ainda será postado).
Início do Paulista de 2013. Uma das raras vezes que sou "flagrado" em fotos de portais. Tks, Terra. :)
Em junho do mesmo ano, durante a pausa da segunda divisão para a Copa das Confederações, minha depressão e ansiedade se agravaram ao ponto de finalmente entrar em colapso. Na época, mesmo tendo virado sócio-torcedor, pensei seriamente em cancelar tudo porque sequer conseguia sair de casa por conta de constantes ataques de pânico. Felizmente, não me deixaram cancelar o plano Avanti. Inclusive uma pessoa próxima chegou para mim e disse:
- Ir aos jogos sempre foi importante para você. Não vejo você abandonando isso.
Estava na minha 15ª temporada na arquibancada e, no dia 12 de julho, uma sexta-feira, senti como se estivesse indo ao estádio pela primeira vez. Era um jogo de série B, contra o fraco ABC, mas senti uma dificuldade enorme em sair do metrô e caminhar até a Pça. Charles Muller. Ao pisar na arquibancada naquela noite, me senti como o mesmo garoto de 11 anos que estava maravilhado com a giganteza que é ver o Palmeiras em campo. A noite foi um ponto de virada, mesmo que ainda batalhasse contra a depressão por mais tempo (e tendo dias piores em agosto), foi um sopro positivo. Como torcedor, também foi um dia marcante, pois após esse jogo, fiquei fora de apenas 3 partidas como mandantes na capital.
Palmeiras x ABC: para muitos, um jogo qualquer, para mim, um jogo que mudou tudo.
O restante de 2013 foi apenas para subirmos de divisão e renovarmos as expectativas de um futuro melhor. Paralelamente, fiz tratamentos contra a depressão que, enfim, me fizeram entrar em uma curva de melhora - embora até hoje lute contra os reflexos disso. Ainda assim, após o jogo contra o Joinville, em novembro e após subirmos, sentei em frente ao Pacaembu e comecei a chorar. Sabia que enquanto torcedor cumpri a minha missão e cogitei largar tudo ali mesmo, seguir em frente apenas como um torcedor casual. Quando cheguei em casa, minha vó, feliz, me fala:
- Ganhamos, você viu como jogaram bem hoje?
Ela estava apenas feliz porque vencemos. Ela não se importava com mais nada, com o clima negativo que vinha das arquibancadas (quem estava em 2013 sabe como estava pesado), com o time ruim. Nada, apenas estava feliz com a vitória. Novamente, isso foi uma inspiração a mais para que eu continuasse.
Veio 2014, o ano do centenário. Se por um lado o Palmeiras usou o ano para fazer besteiras a esmo durante a temporada, por outro se consertaram para 2015 nos bastidores (algo que só hoje enxergo, pois na época entrei em desespero). Na vida pessoal, tive minha evolução, minha fome de querer coisas novas voltou, mas também só ficou nítido no ano seguinte. Caminhamos juntos mais uma vez, de 32 jogos mandando em casa, fui 31 vezes, sendo que o último jogo, já no Allianz Parque, contra o Atlético-PR, foi um dos mais desesperadores que tivemos em nossas vidas. Vários amigos do meu lado chorando de alívio após a partida e muitos gritos de revolta que ecoaram por todo o estádio. Não imaginávamos que o ano seguinte lavaríamos a alma.
2015: um ano onde todos fomos uma alma e coração.
Para quem viveu os dois anos anteriores, entrar em 2015 por si só era um ato de heroísmo. De início, o reflexo do desânimo me fez segurar as esperanças, mas aos poucos as coisas melhoraram durante o ano e faíscas de coisas épicas começavam a aparecer: o gol do meio de campo do Robinho na goleada contra o SPFW, a boa campanha no Paulista, a semifinal contra o SCCP onde Prass foi herói e até mesmo a final, que era um indicativo de que as coisas tinham mudado de fato. Perdemos e vieram minhas primeiras lágrimas do ano - quem estava comigo naquela tarde de maio, em uma lanchonete de hot-dogs, lembra.
A primeira final do Allianz Parque. Ainda não foi dessa vez.
Mas dessa vez tínhamos uma espinha dorsal decente para passar o restante do ano: Prass (sobrevivente de 2013), Lucas, Vitor Hugo, Zé Roberto, Gabriel, Arouca, Robinho, Dudu e, mais para frente, Gabriel Jesus e Barrios. O segundo torneio do ano foi o Campeonato Brasileiro. Se não éramos os favoritos, ao menos a esperança era de que o horror dos anos anteriores não se repetisse. E por algumas gloriosas rodadas chegamos a sonhar de fato com o nosso nono título brasileiro, mas perdemos o gás em jogos contra times menores e ficamos para trás - os últimos jogos foram apenas para marcar ponto na arquibancada. A aposta se voltou toda para a terceira competição nossa do ano: a Copa do Brasil.
A Copa começou em março, ao vencermos o Vitória da Conquista - BA em jogo único. Na fase seguinte, passamos por um Sampaio Correia apenas no segundo tempo de um Allianz Parque semi-lotado (apenas a parte de baixo abriu naquela noite). Terminamos o semestre inicial da Copa com uma partida horrorosa contra o ASA dentro de casa. Lembro que naquela quarta teve uma ameaça de greve no metrô e, por conta disso e por um evento no trabalho, saí de casa às 05h20 da manhã - muito antes do que de costume. Extremamente cansado, mal consegui ficar de pé no jogo que, até a partida contra o Coritiba, foi a que atraiu menos pessoas no Allianz Parque. No dia até poderia não saber, mas hoje percebo que os esperançosos no meio da entressafra da temporada também são os heróis que David Bowie escreveu.
Em agosto, contra o Cruzeiro, engoli toda uma chateação de um dia pessoalmente ruim e vibrei com os gols de Cleiton Xavier e Rafael Marques. No jogo da volta, show de Gabriel Jesus e vaga nas quartas de final. O adversário era um dos nossos adversários mais ferrenhos e um dos poucos que somos realmente fregueses: Internacional.
Vieram então duas noites épicas, daquelas que lembrarei para sempre com carinho e que talvez expliquem um pouco a loucura que é ser palmeirense e que talvez nem Nick Hornby soubesse descrever no maravilhoso livro "Febre de Bola" - mas que David Bowie descreveu bem apenas com um refrão, vejam como é a vida. A noite contra o Internacional, que começou com um Palmeiras demolidor, teve contornos dramáticos quando os visitantes buscaram o resultado no jogo de volta. Por apenas um minuto. Faltando menos de dez minutos, o herói improvável Andrei Girotto marcou de cabeça e fomos para as semifinais - Viu? Bowie estava certo, todos podemos ser heróis. Vieram as terceiras lágrimas pelo Palmeiras (não mencionei acima a despedida do Alex), seguidas de abraços - na final essas lágrimas seriam lembradas, mas falarei sobre isso parágrafos abaixo.
Nas semifinais, tensão do início ao fim contra o Fluminense, adversário que estava engasgado na garganta do palmeirense desde o fatídico Brasileiro-09, por conta do gol pessimamente anulado de Obina. Perdemos na ida e vencíamos bem por conta de um primeiro tempo primoroso, sobretudo por conta do herói argentino-paraguaio Barrios, que estava cansado, mas foi um leão. Infelizmente relaxamos e tomamos o gol que levaria a decisão para os pênaltis. Antes disso, Fernando Prass foi o herói, salvando um gol impossível antes das penalidades. Na disputa, Prass novamente salvou a noite. Muita comemoração, abraços, lágrimas e diversos pulos de alegria entre a Av. Francisco Matarazzo e o Metrô Palmeiras-Barra Funda. Estávamos na final. Faltavam dois jogos.
O meu retrato da Copa do Brasil: muito diferente de 2013.
A primeira final foi tensa, perdemos e sem apresentarmos muita coisa. Novamente, Fernando Prass foi o grande herói da noite, fazendo defesas milagrosas que possibilitariam uma reação no jogo da volta. Guardadas as devidas proporções, o jogo lembrou a partida contra o River Plate na semifinal da Libertadores de 99, quando tivemos muita sorte de perder por apenas um gol de diferença no Monumental de Nuñez. O fato é que saímos da casa da nossa amiga exclamando um sonoro "é possível, estamos bem vivos".
Nunca uma semana passou tão devagar. Nem mesmo o jogo contra o Coritiba, no Allianz Parque, que aconteceu no fim de semana que precedeu a finalíssima, ajudou a amenizar a ansiedade que precedeu o dia 02 de dezembro.
A final:
Apesar de me concentrar bem nos meus afazeres durante o dia, meu subconsciente pedia a chegada do jogo de modo frenético. Assim que deu 18h30, apertei meu passo rumo ao Allianz Parque. Minha ideia inicial era de encontrar alguns amigos rapidamente na Turiassu e entrar no estádio.
O misto de euforia com nervosismo ganhou outros ares ao pisar na Turiassu. A rua estava tomada e completamente intransitável. Por mais que eu gostasse da festa, eu deveria imaginar que uma aglomeração acarretaria problemas grandes. Fui ingênuo e em meio a um mar de pessoas, furtaram meu celular. Todo o cortisol possível foi liberado em meu organismo e perdi completamente a capacidade de pensar claramente: a euforia virou desespero. Depois de tudo, minha vontade foi de simplesmente voltar para a casa e esquecer de vez a final, mas, extremamente desorientado, entrei no estádio.
Meus amigos perceberam o meu nervosismo e desânimo após o episódio pré-jogo. Não era possível que apos anos de penúria enquanto torcedor e na vida pessoal, uma coisa dessas acontecesse justo no dia mais aguardado dos últimos anos, no dia em que meu único foco era apenas desfrutar um dia de glória ao lado de outros palmeirenses que, assim como eu, estavam com o mesmo pensamento. Era uma injustiça sem tamanho.
Vendo o meu semblante confuso e percebendo que me sentia culpado de estar ali após passar por um péssimo momento pessoal momentos antes, uma das pessoas que costuma assistir jogos comigo chegou e falou algumas palavras que ficarão comigo para sempre e aqui registradas, pois naquele essa amiga foi uma verdadeira heroína para mim:
- Eu sei que você se sente culpado por estar aqui depois de ter sido roubado. Mas se quiser ficar parado, sentado, fica tranquilo. Nós sabemos o quanto você torceu, acompanhou e foi presente esse tempo inteiro. Eu lembro de como você chorou no terceiro gol do Palmeiras no jogo contra o Inter. Hoje tem 40 mil pessoas aqui que torcerão por você.
Desabei de chorar. Foi o dia que mais derramei lágrimas em um jogo do Palmeiras. Nem títulos passados e diversas decepções foram capazes de me fazer soluçar tanto quanto nessa noite, pois os três anos que antecederam essa partida vieram na minha cabeça com a intensidade de um golem gigantesco despencando de um prédio de 30 andares. Sentimentos díspares, como amor, tristeza, alegria, preocupação e medo, se fizeram presente em mim naquele momento. E isso foi antes do jogo.
Ao invés de ficar em estado letárgico, reuni minhas forças e comecei a cantar mais alto na medida que a partida estava próxima de começar e fiquei maravilhado com a, possivelmente, festa mais linda que vi dentro de um estádio - certamente a maior dentro do Allianz Parque (algumas no Palestra antigo talvez fossem comparáveis). Olhei para os lados e vi os amigos chorando no pré-jogo, fiz questão de abraçar um a um e berrar "seremos campeões", sabia que eles todos seriam heróis naquela noite. Depois de tudo, não poderíamos perder. NÃO PODERÍAMOS!
E quando a bola rolou, meu foco voltou para o jogo, como em todas as jornadas anteriores - ok, talvez com doses extras de nervosismo. Tudo o que não jogamos na semana anterior, resolvemos jogar na final, mas fomos para o intervalo com a desvantagem. A injustiça ainda se fazia presente naquela noite.
No segundo tempo, a pressão do Palmeiras continuou e enfim veio o momento que esperávamos: gol. Dudu, um herói mordido, machucado em jornadas anteriores pelo mesmo adversário, foi o homem a marcar o gol que colocava igualdade na disputa. Novas lágrimas vieram, uma amiga minha me abraçou forte ao ver que naquele momento eu já não tinha mais controle algum sobre as minhas emoções.
O segundo tempo prosseguiu, o nervosismo também e, já perto do final da partida, Dudu faz o segundo gol. O título, enfim, estava em nossas mãos. Entramos em um estado de euforia quase impossível de descrever. Por dois minutos gloriosos, a taça era nossa.
Mas como a vida de palmeirense sempre tem doses extras de sofrimento, tomamos um gol nos minutos seguintes que deixou todo torcedor alviverde do mundo consternado. Não era possível que tudo isso aconteceria com requintes máximos de crueldade.
Com isso, não deu para evitar os pênaltis. Mas como falei muito de heróis, surgiu aquele que, assim como eu, sabe que o título começou no final de 2012. Fernando Prass chegou com o time rebaixado, vivenciou ambientes tétricos, aturou times ruins e, de modo heroico, chegou à final. O protagonismo tinha que ser dele.
Prass fechou a meta em um dos pênaltis, contou com o escorregão de um jogador santista e fechou o campeonato ao converter o penal decisivo. Eramos campeões!
Novamente vieram as lágrimas, com abraços fortes de amigos, palmeirenses, todos sem palavras para descrever o que é estar ali vendo o Palmeiras dando a volta olímpica, levantando uma taça, sendo o vencedor. Tudo o que aconteceu entre 2012 e 2015 veio forte na minha cabeça naquele instante, os tempos sombrios, como o pânico quase me impediu de ir aos jogos, como quase abandonei a arquibancada, como continuei aos trancos e barrancos e como até mesmo antes desse jogo as coisas deram absurdamente errado.
Após um longo tempo no estádio, continuamos festejando fora, abraçados, caminhando pela Pompéia e gritando que éramos campeões. Tricampeões, um título que se não foi um dos mais técnicos, certamente foi um dos que teve mais alma. Mais heróis.
Dessa vez não tivemos um santo nos protegendo nas traves, ou um gol espírita, ou um selecionado de astros, ou mesmo um meia chileno endiabrado (em 2008) ou uma combinação de fatores que fez a bola resvalar na cabeça do Betinho. Tivemos heróis, em campo e fora dele. Prass foi herói, Dudu também, Zé Roberto também, Robinho também, eu também, outros 15 milhões de palmeirenses também foram. Nunca uma música fez tanto sentido para minha vida de torcedor. Obrigado, David Bowie. E obrigado, Palmeiras.
We can be heroes!
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Não sei como será em 2016 na minha vida de torcedor, mas entro bem mais leve. A taça Libertadores é obsessão, que venha!





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