Com essa frase que ouvi da pessoa que estava em um relacionamento (ou algo parecido com isso) em fevereiro de 2013 que abro esse texto. Já tinha colocado essa frase dita em um texto escrito em março de 2013, no mesmo contexto que abordo hoje, mas na época eu não tinha muita noção de como as coisas poderiam e iriam piorar. Sobre a frase em si, ela tinha total razão sobre o que acontecia comigo, meu silêncio naquela noite gritava sobre como estava angustiado, triste e como não conseguia mais esconder tudo aquilo.
Naquela noite de segunda, com meus recém completos 25 anos, fiquei sem saber lidar com os reveses que a vida nos impõe, sem ter a ciência de que não temos o controle de tudo o que acontece ao redor, que nem tudo que planejamos sai como o esperado e que a beleza do mundo é que ele tem diversas alternativas para se tentar viver, eram coisas que não passavam pela minha cabeça nesse período. Em fevereiro, a sensação que tinha era de que as coisas estavam fugindo do meu controle e isso era apenas a ponta de um gigantesco iceberg que demorou mais de um ano para seu degelo.
Se no ano anterior eu soube levar as coisas adiante sem maiores problemas (ou soube disfarçar muito bem), em 2013 eu não conseguia esconder mais de ninguém que as coisas estavam erradas. As pessoas percebiam isso no meu olhar distante, no meu semblante, nos meus sumiços, na minha inconstância e, principalmente, nas minhas atitudes. Foram várias as vezes que recebi a pergunta "tem alguma coisa de errada?" e eu fiquei sem saber o que responder. De fato, não sabia a resposta, tentava desesperadamente entender as razões das coisas não andarem e passei a me cobrar ainda mais do que já fazia - o que não era pouco. Tinha em mim que, quanto mais velho ficava, maiores eram as cobranças externas, que se eu pisasse apenas um centímetro fora da linha as pessoas sentiriam vergonha de mim e passariam a apontar ainda mais o dedo (algo que, em tempos de redes sociais, infelizmente é comum). Sem contar que me sentia completamente alienado dentro da minha própria casa, não tinha como confiar nas pessoas da minha própria família (e, isso ainda hoje em 2015, lamento muito que essa lacuna não tenha sido preenchida) e qualquer coisa relacionada a eles era motivo para eu pensar mais de duas vezes antes de fazer ou falar qualquer coisa.
E as minhas memórias do primeiro semestre de 2013 são, talvez, as mais borradas e esparsas da minha vida. Sei que foi um semestre que tentei anestesiar desesperadamente a situação saindo o máximo que podia entre janeiro e maio - ainda mais que em 2012 -, mas não lembro das coisas desse período com a precisão que lembro de outros momentos. Lembro que os dias eram intercalados com choros compulsivos, raiva extrema de mim mesmo, falta de criatividade, falta de perspectiva, letargia, repetições, insônia e ansiedade. Sentia que apenas um fato extraordinário e externo poderia mudar isso, mas depois vi o quão estava errado quanto a isso e que não era algo de fora para dentro que iria mudar as coisas.
Paralelamente, ainda entrei em um raro relacionamento que só provou por A + B que minha felicidade não dependia de outra pessoa, que muito da minha carência vinha de uma baixa estima de anos, fazendo com que uma antiga concepção muito errada desmoronasse como um castelo de cartas em um furação. Para piorar a situação, toda vez que tava com ela eu bebia a mais do que normal, o que agravava a situação e me fazia sentir ainda pior no primeiro momento que me encontrava sozinho.
Era questão de tempo para que eu desmontasse de vez.
E aconteceu. Entrou junho e desmoronei como se alguém tivesse sido empurrado de um penhasco. Na terceira semana de junho e com o caos tomando conta da cidade de São Paulo devido aos crescentes protestos, um pânico aflorou em mim como se estivesse prestes a ser condenado por algo que não tinha feito. Era uma sensação horrível e ficou impossível de levar adiante. Foi em uma noite de junho que tive a maior crise de choro da minha vida, um pedido de ajuda desesperado e talvez o momento que me senti mais vulnerável em minha vida. No dia seguinte, sem conseguir dormir na última noite, decidi que precisava por um fim nisso tudo, não dava mais para disfarçar nada e, enfim, admiti para mim mesmo e para alguns amigos mais próximos que estava com depressão e tendo fortes ataques de pânico. Pedi desculpas para eles por tudo isso, pois tudo o que menos queria era preocupar alguém, mas sentia que precisava responder quem perguntava "o que tinha de errado".
As crises agora eram diárias e muitas vezes começavam do nada. Minha cabeça era um oceano de pensamentos e a maioria deles eram ruins. Com isso, cheguei ao ponto onde não consegui sair de casa sem ajuda. Em uma ocasião, fui ao aniversário de uma amiga após pedir ajuda para minha irmã ir comigo. Não lembro sequer como cheguei ou como fui embora, mas vi uma foto minha desse dia e a tristeza nos meus olhos se misturaram com uma palidez assustadora. Antes de sair de casa, tive crise de choro e até passei mal. Terminei junho me sentindo menos do que um ser humano, nada além de uma sombra. Nessa altura, o relacionamento que tinha também terminou - o que, em certo ponto, foi um alívio para ambos.
No início de julho voltei a terapia e até achei uma psicóloga, mas em duas sessões deixei para lá. Motivos? Além da profissional não me passar confiança para me sentir confortável para exaurir meus demônios, a mesma, após me dar um chá de cadeira e atrasar na segunda sessão, cortou o que estava falando e interrompeu tudo em menos de 15 minutos. As sessões já não eram longas (30 minutos), mas essa desfaçatez não me fez sentir nenhum remorso de sequer desmarcar as três sessões seguintes que tinha agendado. Simplesmente não olhei para trás e me vi perdido.
Após essa desilusão com a "psicóloga", tentei adotar pequenas medidas para melhorar. Não com o intuito de "ser como era antes", mas para recomeçar do zero de vez. Minha irmã ainda insistiu para que eu fosse na terapeuta dela, que envolve psicologia e meditação, mas deixei essa ideia em stand by por algum tempo. Meu foco durante julho era voltar a dar passos para fora de casa sem precisar de ajuda e, mesmo com algumas crises, senti que obtive pequenas vitórias. O marco desse período foi a minha ida para o Pacaembu ver Palmeiras x ABC, pela Série B daquele ano, após quase desistir de ir ao jogo já estando no metrô. Também evitei remédios, sempre encarei-os como a última das últimas opções por conta do enorme medo de me tornar dependente das medicações, embora talvez fosse útil naquele momento. Não tem como saber de fato.
O caminho era longo, precisava escalar um mundo para deixar tudo isso para trás. E meu erro foi dar um passo maior do que a perna e assim desmoronar tudo de vez, como no início de agosto, em uma tarde de domingo que saí para beber e tudo voltou para o poço, estando altamente embriagado e me odiando como poucas vezes me odiei.
Mas a partir dessa noite onde atingi um novo nível baixo na minha vida, finalmente tentei coisas diferentes que talvez tenham feito a diferença até hoje.
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