terça-feira, 13 de novembro de 2018

Carta para o garoto que chutava a bola sozinho na rua

Caro garoto que estava na quadra jogando bola sozinho.

Por puro acaso, abri a janela em uma manhã ensolarada de domingo e o vi no campinho de futebol. Estava muito cansado, mas estava em momentos de reflexões sobre minha vida e parei para observar as coisas ao meu redor e notei que ali, na pequena quadra, só tinha você, chutando uma bola para o gol de modo bem descompromissado. Você parecia estar se divertindo bastante, provavelmente fingindo ser algum jogador famoso que ele tenha como ídolo, assim como muitos de nós fazemos enquanto criança desde que o esporte se massificou.

Provavelmente nunca conversarei com você, mas caso encontre este texto, digo para que continue chutando as bolas para o gol de modo descompromissado, que se divirta bastante e não pense em possíveis agruras de vida adulta.

Sabe aquele jogador do seu time que você idolatra? Por minutos, seja esse jogador. Nos anos 90, quando queria jogar bola e não tinha ninguém, fazia as vezes de ídolos do meu time, como Alex, Paulo Nunes, Edmundo, Zinho e outros. Simplesmente saia correndo pelos campos da Vila Silvia e não pensava em mais nada, apenas me divertia. Talvez você seja o Dudu nesses tempos atuais? Pode ser, não sei, afinal, utilizei exemplos apenas do meu time, mas você pode ter ídolos de times rivais, faz parte. Apenas pare por alguns momentos, esqueça do mundo e sinta um estádio lotado ao seu redor, mesmo que ainda não tenha visitado uma arquibancada na vida. Você tem uma arquibancada inteira cantando seu nome em uníssono. Usufrua.

Continue chutando essas bolas no gol porque logo irá aparecer mais um para jogar com você. Talvez algo como um-a-um, em que dribles ou a própria velocidade façam a diferença. Gol a gol? Outra boa ideia, afinal, você continua praticando a pontaria, mas de modo mais desafiador. Existem mais crianças que também gostam de chutar bolas para o gol sem compromisso com a seriedade. O mais importante disso tudo: esqueça as horas passando, continue se divertindo.

Outras crianças aparecerão e vocês formarão times, dois a dois, três a três e por ai vai, até o sol se por, até ficarem sujos de terra o suficiente para perceberem que a partida valeu a pena. Cada um, a seu modo, irá emular seu ídolo em campo. A diversão continua e desta vez ela é compartilhada. Aproveite muito esse momento, pois irá arrancar sorrisos verdadeiros ao se lembrar deles na vida adulta.

Acredite em mim quando digo que esse é um momento de alegria genuína, pois você utiliza toda sua criatividade mental para transformar um simples campo em um estádio. Você é o protagonista do jogo. Não há pressão da vida que tire isso de você.

Por fim, repita esse momento o máximo que puder. Não deixe que a vida te tire a capacidade de imaginar um estádio lotado se formando ao seu redor, não deixe que tolham a sua criatividade de formar cenários e jamais se abale se errar o alvo na hora do chute. Acima de tudo, se divirta, aproveite bem esses momentos.

De verdade, te invejo por estar jogando bola sozinho enquanto não chega ninguém, afinal, isso me lembra algumas das melhores coisas da minha infância, como a sensação de liberdade e como criamos coisas sem um pingo de julgamento, seja do próximo ou pior, de nós mesmos. Mais de vinte anos se passaram desde a última vez que joguei bola sozinho em um campinho e hoje sou um adulto que, por ver a vida acontecer, não joga bola há mais de quatro anos, mas fico feliz que a tecnologia atual, que tanto distrai e que por vezes destrói, não foi capaz de impedir esses momentos.

Que outras crianças criem suas próprias arquibancadas e sejam protagonistas de seus jogos, assim como fui um dia.

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