Neste mês, faz dois anos que realizei um mochilão que envolveu cinco países e que foi um verdadeiro divisor de águas na minha vida. Foi uma viagem transformadora em diversos aspectos, como o fato de ter sido a primeira que realizei inteiramente sozinho e também a que mais absorvi informações e culturas locais. Se de início a ideia parecia assustadora, na prática foi tudo maravilhoso, tamanha autonomia que tive para escolher o que quisesse, na hora que bem entendesse. Sim, muitas vezes mudei de planos sobre programação enquanto andava por uma determinada região.
Entre programas culturais, cervejas e até uma visita na sede da ONU, alguns momentos me marcaram para a vida, como a visita à casa de Anne Frank, em Amsterdã, e a ida para o antigo campo de concentração em Dachau, perto de Munique. Esse último, aconteceu na metade da viagem e mudou minha visão de mundo.
Decidi fazer essa visita para o memorial em Dachau apenas na noite anterior, após uma australiana comentar que iria sair uma excursão do hostel para lá - meu plano inicial era visitar a montanha de Zugspitze, algo que fiz no dia seguinte. Por ter lido diversas coisas e visto muitos filmes e documentários sobre a segunda guerra, achei que seria didático ir para o memorial, afinal, se foi mantido de pé pelos sobreviventes é porque eles queriam passar uma mensagem.
Era uma manhã de sol, apesar do frio de novembro e chegando lá consegui entender o porquê de manterem de pé um local que foi considerado um um benchmarking da brutalidade, uma verdadeira escola de violência cujas atrocidades e torturas, sejam físicas ou psicológicas, iam além do que imaginamos. Antes mesmo de entrar no local, o guia contou que aquilo tudo foi mantido como memorial para homenagear os sobreviventes e, sobretudo, as diferenças entre os seres humanos. Mesmo assim, meu coração partia em pedaços a cada passo que dava no local, especialmente quando olhava para canto do local e imaginava o contexto da época. Olhava para o lado e sentia que o mesmo ocorria com as pessoas que vieram comigo nessa excursão. Lágrimas escorreram pelos olhos de todos ali.
Dachau foi o primeiro campo de concentração construído durante o regime de terror e inicialmente foi projetado para presos políticos, mas com o tempo expandiram para outros prisioneiros. Foi uma sensação muito triste caminhar por esse lugar, especialmente em partes muito terríveis para a humanidade, como as câmaras e os crematórios.
Após a visita, fiz questão de guardar o objetivo dos sobreviventes em meu âmago. A história deles merece ser contada e repassada o máximo de vezes possível. Eles mantiveram Dachau como um memorial para que as pessoas sempre se lembrem que as diferenças devem ser celebradas e que o extremismo causa males muito fortes na humanidade, algo que infelizmente ainda é visto com frequência, apesar de já termos passado por um período extremamente sombrio em nossa história. E pelas histórias que repassam, esses sobreviventes foram humanos maravilhosos, que nos anos posteriores ao confinamento, levaram a vida com bom humor e leveza, repassando a importância das diferenças entre os seres humanos e como devemos coexistir em harmonia. O símbolo disso é a estátua do "sobrevivente desconhecido" (foto), que demonstra uma altivez única após sobreviver a um período de horrores.
Saindo do memorial, eu, os australianos e os americanos presentes sentamos em uma mesa, pedimos uma cerveja enorme e fizemos um brinde. Brindamos os sobreviventes, as diferenças. Brindamos a vida.
Para mim, vou carregar e repassar sempre essa mensagem de amor que eles desejavam. O legado dos que sobreviveram aos piores momentos da humanidade e ergueram o memorial são uma inspiração para que sempre lutemos contra o extremismo, que independente do contexto, apenas traz o mal. Eles queriam que as pessoas aprendessem a conviver com as diferenças e espero de coração que a luta deles não seja em vão. Se depender de mim, a luta deles não terá sido em vão, pois sempre irei repassar essa mensagem de amor e respeito com as diferenças.
Um viva para as diferenças!


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