quarta-feira, 31 de julho de 2013

35 minutos na vida de um torcedor

Jogo de futebol as 21h50 sempre será um descalabro. Sabendo que o metrô, meio que muitos torcedores usam para ir ao estádio, fecha a meia noite em dias de semana, é inadmissível que marquem jogos para esse horário - problema antigo, cuja culpa são dos imbecis que desenvolvem a tabela e transmitem os jogos. Se colocarmos na conta de que o jogo era da série B e não teria transmissão alguma, o questionamento é ainda mais pertinente e a irritação aumenta.

Mesmo com tudo isso, fui ao jogo, mas com o relógio na mão para não perder o metrô de volta para casa – único meio de volta possível naquela noite.

23:37
Após o quarto gol do Palmeiras, já nos acréscimos, saí pela rua Paulo Passaláqua e dei um pique muito forte em direção ao metrô mais próximo, que no caso seria o Clínicas – não compensaria dar a volta até a Rua Goiás e ir para a Av.Angélica, eu provavelmente perderia o metrô. Naquele momento, a ideia era de chegar o quanto antes no metrô, não importava como.

A quantidade razoável de torcedores do Palmeiras que também estavam correndo em direção ao metrô Clinicas era um presságio de que estaríamos perdidos caso não acelerássemos o ritmo. E essa se mostrou uma decisão bem acertada.

23:45
Mas por mais que ainda tivesse pernas, a corrida teria fim ao chegar na infame subida da Major Natanael, que é uma das ladeiras mais ingratas (e cansativas) de São Paulo. Foi ali que achei que não conseguiria chegar a tempo. Quem conhece a região, sabe que é a subida é íngreme demais para correr até o topo, ainda mais depois de já ter corrido até o pé da ladeira.

Durante a subida, mesmo andando, comecei a ofegar e meu tornozelo esquerdo começou a doer. Assim como em dias de derrotas, a subida parece não ter fim. Eu queria parar e respirar um pouco, mas se tivesse feito isso eu não conseguiria embarcar.

23:48
O ar gelado penetrava meus pulmões a cada passo dado e o cansaço físico já tinha tomado conta por completo quando finalmente alcancei o topo daquela ladeira. Por mais que o tempo de subida parecesse ter sido uma eternidade, no fim foram apenas 3 minutos – segundo os relógios de rua – e uma vez na Dr. Arnaldo, restava apenas um último pique para finalmente adentrar o metrô Clínicas.

Mas eu não queria correr mais, por mais que minha razão falasse para correr, minhas pernas não deixavam. Apenas acelerei um pouco o passo e contava com a compaixão dos seguranças em não fechar os portões do metrô comigo do lado de fora. O medo de chegar ao metrô com 1 minuto de atraso como aconteceu na noite do show do Judas Priest, era grande. Felizmente, o raio não caiu duas vezes no mesmo lugar.

23:52
O momento em que passei o bilhete único foi talvez o mais glorioso desses 15 minutos de terror. Por um momento tive a falsa sensação de que estava a salvo e não teria que correr mais. Me enganei.

23:57
A transferência da linha verde para a linha amarela seria tranquila se não tivesse o seguinte anúncio ao descer na estação Consolação:

“Estamos encerrando as operações da linha 4 amarela. O último trem parte em instantes”.

Mais corrida. De fato, parecia uma maratona, pois não foi o único a correr desesperadamente da plataforma verde para a plataforma amarela. Em determinado ponto do túnel, vi pessoas correndo tão velozmente que impressionaria até comitês olímpicos.

Não fui diferente, tirei fôlego e pernas de onde não havia mais e consegui chegar no exato momento em que o trem parou na estação. Completamente exaurido, apenas sentei no primeiro assento que vi pela frente e me perguntei se passaria pelo mesmo terror ao chegar à estação República.

00:02
O processo de corrida se repetiu ao chegar na estação República, mas como eram apenas descidas, a chegada na plataforma da linha 3 vermelha foi mais tranquila.

Felizmente, não demorou muito para o trem sentido Zona Leste chegar e finalmente encerrar uma noite de resultados positivos, mas com sufocos.

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