sexta-feira, 12 de julho de 2013

Demonstrações públicas (até demais) de afeto

O ano era 2005, ainda bem no início. Estava de férias escolares entre o segundo e terceiro ano do ensino médio e viajei para Caraguatatuba com o restante da família. Em um dos dias, lembro claramente que enquanto todos preferiram ir à praia logo cedo, eu optei por permanecer dormindo, mas naquele dia talvez fosse melhor ter dado um mergulho. Ou melhor, era mais vantagem passar horas trancafiado em um tanque com tubarões a ter que ouvir o que ouvi.

No alto do meu sono fui despertado por um barulho alto e incomum. Tudo bem, praia é um ímã para acéfalos que usam o estéreo de seus carros como se todos fossem obrigados a ouvir os sons que eles gostam (especialmente funk, que não é música, mas sim uma praga egípcia contemporânea). Mas neste caso era alguém fazendo alguma chamada.

A princípio achei que fosse vendedor de cândida ou pamonha, mas tinha uma introdução aparentemente elaborada e era direcionada para um nome próprio. Levantei e fui tomar um leite pensando “pronto, isso vai longe”.

Liguei a TV para assistir algum desenho, mas o som que vinha da rua era muito mais alto. Desliguei a TV, me dei por vencido e passei a escutar a mensagem que queriam passar – não apenas para o alvo desejado, mas para o quarteirão inteiro. Era um carro tele mensagem.

Carros tele mensagem é o suprassumo da vergonha. Eu me sinto mal por alguém que é “homenageado” por esse tipo de meio, imagino o quão envergonhada e com vontade de sumir do mapa a pessoa esteja. No outro lado da moeda, sinto uma raiva fora de série de alguém que usa esse tipo de serviço, por não ter o senso do ridículo e pela falta de noção ao não pensar que pode estar envergonhando profundamente a pessoa que gosta. É brega e impessoal, sem contar que irrita todo mundo ao redor.

A mensagem vinha de um rapaz aparentemente arrependido de alguma presepada que aprontou, porque de início estava pedindo desculpas para uma pobre garota a respeito de atitudes anteriores. No meu íntimo eu murmurava coisas como “se essa pobre garota homenageada tem os parafusos no lugar, ela não só não perdoa como ainda pede uma ordem de restrição”. Era constrangedor, mas ficaria pior.

Meu dia ficou completamente arruinado no momento em que o microfone foi passado para o rapaz arrependido e simultaneamente a música Dust in the Wind, na bela versão da Sarah Brightman, passou a ser plano de fundo de um dos discursos mais bregas e vergonhosos que tive o desprazer de ouvir. E de todas as versões de “Dust in the Wind”, a que eu mais gosto é justamente essa da Sarah, embora nenhuma versão merecesse passar por um suplício desses.

I close my eyes
Only for a moment
And the moment's gone

Quando o primeiro verso da música foi entoado, o cão arrependido disse coisas genéricas como “sei que errei, mas não consigo viver sem você” e baboseiras que dariam vergonha até para locutores que declamam mensagens de amor nas rádios. Eu realmente queria fechar meus olhos e perceber que esse momento tinha terminado, mas ao contrário do que a música clama, o terror continuava.

All my dreams
Pass before my eyes, a curiosity

Repentinamente ouvi aplausos. Não era possível que estivessem apoiando essa declaração atroz. Fiquei ainda mais perplexo.

Dust in the wind
All they are is dust in the wind

Ah, a tão filosófica poeira no vento. Como eu queria naquele instante que esse carro tele mensagem fosse uma poeira em meio a um furacão Katrina e fosse varrido dali com uma rapidez recorde.

Durante o segundo verso da música ele finalmente parou de pedir desculpas – deve ter cometido algum delito bem grave – e finalmente disse o quanto amava ela e que queria reconstruir a relação. Não sou nenhum sommelier em relacionamentos, mas acredito que esse é o tipo de coisa que se conversa no olho a olho e não alertando ao mundo que fez besteiras.

Now, don't hang on
Nothing lasts forever
But the earth and sky

Segundo a música, nada dura para sempre exceto a terra e o céu. Os compositores estavam errados, o discurso do jovem arrependido parecia durar uma eternidade.

It slips away
And all your money
Won't another minute buy

E eu realmente esperava que toda a grana do mundo não fosse o suficiente para comprar o amor dessa garota de volta. Ou pior, comprar uns minutos extras dessa tortura. Para completar a tragédia, o incauto ainda declamou algum tipo de poesia como se fosse uma espécie de “gran finale”. Ninguém merece.

Assim que a música acabou o narrador novamente tomou as rédeas e fez um papel de mediador, como se fosse apresentador daqueles programas adolescentes de paquera – que também são vergonhosos. Não quis saber o desfecho, independente do que fosse feito, qualquer um ali provavelmente não saberia onde esconder a cara e eu me senti mal pela garota que foi obrigada a ouvir tudo isso, liguei a TV, aumentei o volume e me concentrei no desenho vigente.

Não sou absolutamente contra demonstrações públicas de afeto, gosto quando uma coisa sutil é feita, como um texto bem elaborado que homenageie a pessoa, surpreender a amada com flores ou mesmo dar um beijo forte em local público inesperadamente. Particularmente prefiro os gestos mais intimistas, para mim é mais verdadeiro.

Mas se expor ao ridículo é demais. Pior, expõe a pessoa que diz amar ao ridículo.

4 comentários:

  1. ufaaaaa!! achei que o pedido "super original" de desculpas era pra VOCÊ!!! auhauaha eu só li até o final pra ter CERTEZA de que não era
    mesmo!!!

    Vinicius

    ResponderExcluir
  2. Se fosse para mim certamente teríamos algum tipo de explosivo envolvido. E outra, quem em sã consciência pediria desculpas para mim desse jeito? hahaha

    ResponderExcluir
  3. Eu nunca perdoaria se alguém fizesse isso cmg, rsrs
    Mas pior do que saber que tem gente que acha que isso é uma boa ideia, ainda tem quem goste de receber uma surpresas dessas. jamais entenderei.

    ResponderExcluir
  4. Nem me fale. Eu não perdoaria nem a pau alguém que fizesse isso comigo, seria sacanagem completa.

    ResponderExcluir