domingo, 23 de setembro de 2012

Desventuras culinárias

(ou, sei fazer cheesecake mas não sei fazer arroz) 

No final de julho, após ir ao cinema com a minha irmã para ver o encerramento da maravilhosa trilogia do Batman, paramos em uma cafeteria do shopping. Ela estava com muita vontade de comer cheesecake. Como o pedaço era grande e não era caro, topei comer junto com ela.

Sem pressa, enquanto comíamos, também discutiamos sobre o filme quando de repente o assunto mudou de maneira brusca:

- Hum, esse cheesecake está uma delicia. 

- Realmente, ele é muito bom. Já pensou que legal fazer isso em casa?

- Mas você não sabe nem fazer ovo cozido. – Uma verdade dolorida.

- Bom, algum dia farei. 

Quando disse esse “algum dia”, não imaginava que seriam semanas depois, ainda mais quando não tenho um bom passado relacionado a cozinha e receitas.

Pra começar, meu histórico na cozinha não é muito abrangente. Meu primeiro contato com o fogão foi aos 13 anos. Foi uma aprendizagem forçada, afinal, em 2001 o governo federal resolveu fazer um racionamento de energia que forçou as “férias” de muitos aparelhos eletrodomésticos, entre eles o micro-ondas. Foi quando aprendi o princípio básico: ligar o fogão. Nisso, aprendi a esquentar meu leite.

O problema das minhas primeiras utilizações era o medo. Não o meu medo, mas o dos meus pais. Meu histórico de acidentes domésticos envolvendo quebra de pratos e copos por puras trapalhadas, naquele ponto era grande. Mas com 13 anos, tivemos todo o treinamento do mundo que as brigadas de incêndio ministravam, então, não éramos estúpidos o suficiente pra desafiar a máxima de “não brincar com o fogo”. Depois de verem que eu sabia fazer o básico sem causar estragos, o medo deles passou.

Em 2003 cheguei ao Ensino Médio e com isso passei a ter aulas a tarde. Por consequência da extensão da minha grade horária escolar, perdia o almoço preparado horas antes. Como eu chegava em casa realmente faminto, a opção mais rápida para preparar comida certamente seria a primeira e com isso, passei quase um ano inteiro preparando miojo e variando apenas o tempero que vinha junto. Comi tanto miojo que hoje não suporto olhar pra um.

No ano seguinte, além das aulas a tarde, tinham também os treinamentos esportivos no colégio, fazendo com que meus horários de almoço se dissipassem novamente. Comecei a “variar o cardápio” e comecei a fritar hamburgers e cozinhar salsichas. Isso quando eu não deixava tudo de lado e comia baconzitos com ketchup. Claro, não levava a sério a orientação de me alimentar saudavelmente para a prática de exercícios e isso explica a minha magreza impressionante aos meus 16 anos.

Foi só aos 18 anos, já na faculdade, que tomei vergonha na cara para aprender a cozinhar o mínimo possível para sobreviver em situações de emergência. Passei a fazer macarronadas e até molhos, sendo que o melhor deles era o de atum. Considerando que eu sempre chegava tarde da noite e cansado, não era toda noite que eu tinha paciência para cozinhar, então aprendi a fazer minipizzas em frigideiras, nada excepcional, mas quebrava bem o galho.

Com esse histórico, fica bem fácil entender porque as pessoas duvidaram que fizesse um cheesecake. 

Menos de uma semana após comermos o cheesecake no shopping, imprimi uma receita do Cybercook e topei o desafio de preparar a sobremesa do dia dos pais. O preparo teve 3 etapas.

Etapa I – Ingredientes. 
A primeira coisa que fiz foi checar se tínhamos ingredientes para fazer a base e o recheio da sobremesa. Para minha surpresa, só encontrei biscoito maisena no armário, forçando minha ida ao supermercado numa noite de sábado para comprar os ingredientes certos.

No supermercado, nada de anormal na hora de comprar os ingredientes, o problema foi as ironias da vida que me perseguiram, afinal, consegui ser atropelado por um andaime no momento em que eu estava a caminho de comprar cerveja. Chequei todos os ingredientes – embora eu nunca tivesse visto gelatina incolor na minha vida – e como tudo estava certo, fui pra casa começar a segunda etapa.

Etapa II – Agora é que são elas. 
Com todos os ingredientes separados e com a receita impressa para me auxiliar, era a hora de literalmente colocar a mão na massa. Mas como queria fortes emoções, tomei 3 latas de cerveja antes de começar.

Pra fazer a base da sobremesa, tive que fazer algo inédito: triturar biscoito maisena no liquidificador. Depois de anos sem entender a função do botão “pulsar”, usei-o pela primeira vez nessa noite e obtive sucesso na empreitada, já que consegui transformar um pacote inteiro de biscoito maisena na mais pura farofa. Com o pó de biscoito, misturei com manteiga e cobri toda a travessa. A poeira espalhada pelo biscoito somado com a manteiga e os pacotes abertos transformou a cozinha em um cenário pós-apocalíptico. Mas entre mortos e feridos, consegui uma base sólida para a sobremesa.

Restava fazer o recheio e pra isso teria que usar outro utensílio que nunca usei na minha vida: batedeira.

Essa parte foi fácil, consegui misturar cream cheese, creme de leite e leite condensado sem maiores problemas. Até mesmo para abrir as latas foi fácil, algo que sentia extrema dificuldade há dois anos. Com a massa despejada na base, o passo seguinte era deixar a sobremesa na geladeira e colocar a cobertura de geleia no dia seguinte.

Etapa III – O drama. 
Uma cena de Friends que nunca sai da minha cabeça é da Rachel fazendo a sobremesa no feriado de Ação de Graças da sexta temporada. No episódio, ela tenta fazer a sobremesa, mas acaba misturando duas receitas, transformando a jornada da coitada em um desastre. Para não decepcionar a Rachel e dizer que ela arruinou a receita, Joey instrui o pessoal a fingir que a sobremesa estava boa e em seguida, a Monica passa a mão na barriga e fazendo “huuum”, em uma das cenas que mais ri daquela temporada.

Essa descrição acima funciona bem pra entender como estava minha mente naquele instante: com medo de que todos que comessem fingissem gostar da sobremesa só pra não me deixar decepcionado. Por esse medo, resolvi cortar o primeiro pedaço pra mim mesmo já que eu sou mais exigente em relação a comida do que o resto da casa.

Gostei, me surpreendi que tudo deu certo.

O sucesso da sobremesa foi tanto que ela acabou no mesmo dia, todos comeram tudo o que foi preparado, sendo que a única ressalva era que eu devia ter cozinhado menos a base do cheesecake.

Conclusão.
Hoje as pessoas aqui de casa estão pedindo para que eu faça mais vezes essa sobremesa. Eles sabem que eu continuo um desastre em coisas básicas na cozinha, mas ao menos o doce é garantido.

Ainda preciso aprender coisas básicas como arroz, pra poder fazer risotos e arroz a grega, que são pratos que adoro, mas um grande passo foi dado para tentar as receitas sem que precisemos chamar os bombeiros.


O resultado final dessa aventura.

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