Com 17 anos e com pouca noção do que viria pela frente, fui facilmente engolido – minha cabeça ainda estava no colégio e a velocidade com que as coisas aconteceram me deixou perdido – e então passei por uma verdadeira fase louca. Se nos anos anteriores à faculdade eu já flertava com o álcool, em 2006 o flerte virou namoro sério e chutei o balde diversas vezes sem a menor dor na consciência – isso também com o pessoal que não era da faculdade. Apesar de levar as aulas a sério, uma brecha mínima já era motivo suficiente pra beber cerveja com o pessoal.
O caso mais emblemático desses exageros foi na primeira (e única) viagem de campo que fizemos com a sala inteira, para Santo Antônio do Pinhal. A viagem aconteceu no final de abril de 2006 e me pegou em um péssimo momento pessoal, já que eu estava caidinho por uma garota e ela preferiu partir pra outra. Como ela me deu o “não” definitivo dois dias antes da viagem, parti desolado e disposto a focar no trabalho, mas na primeira noite, que era de “celebração”, bebi tudo que vi pela frente e saí andando bem ébrio.
Os alunos ficaram hospedados em duas pousadas distintas: uma onde ficou concentrado o QG de professores e reuniões, que era o local onde estava acontecendo a celebração e a outra que ficava na mesma rua, que era onde eu estava hospedado. Entre as duas pousadas tinha um ponto de ônibus.
Eu cheguei a tentar entrar na pousada, mas sozinho e sem chave, fiquei pra fora. Cogitei voltar pra “celebração”, mas pensando em tudo que tinha acontecido antes da viagem e por ver aquilo que eu idealizava para a faculdade ruir como um castelo de cartas em questão de meses, chorei. Eu queria ficar sozinho, afinal, eu ainda não confiava em ninguém ali naquele instante. Foi quando me deitei no ponto de ônibus e fiquei me lamentando por lá. Estava uns 4º (alto da serra né?), tirei o casaco e fiquei só de camiseta, sem pensar nas consequências da friagem. Cerca de dez minutos depois veio um pessoal da minha sala – também bêbados – e me localizaram. Não os ouvi no caminho, mas eles me contaram que falaram desse jeito:
- Nossa, aquele cara que tá deitado ali tomou todas hein?
- Mas ele não é da faculdade?
- Nossa, é o Marcus! – Disse um amigo meu com um tom bem assustado.
Quando eles chegaram, eu não queria levantar de jeito nenhum. Estupidez mesmo da minha parte, mas eles não me deram muita escolha (ainda bem) e no fim, o resultado foi fazer os trabalhos do dia seguinte de ressaca e completamente sem voz. Um dos moradores que eu estava pesquisando até praticou um minibullying com a condição da minha voz, gritando um “fala mais alto”.
Todo adolescente é idiota. Todo adolescente bêbado fica ainda mais idiota. Eu? Atingi novos níveis com essa história.
Na sequência do ano e em partes do ano seguinte, a história de pileques continuou forte. Não tinha a intenção de parar, mas tentava dosar a situação e beber apenas em momentos que não atrapalhassem o meu andamento do curso, algo que terminou de vez no segundo ano. Outros alunos não fizeram a mesma coisa e confundiram horário de aula com farra e o resultado foi que pouca gente estava presente na colação de grau.
Tínhamos 3 lugares específicos onde dava para beber: calçadão, estacionamento do Extra e o um bar/estacionamento chamado Viana. Cada um com suas características.
Calçadão
Acho justo ter uma ordem cronológica sobre o que veio primeiro e o calçadão me foi introduzido já na segunda semana de aula.
O calçadão nada mais é do que um conjunto de bares onde as mesas ficavam a céu aberto. Era o ambiente perfeito pra beber cerveja e relaxar do stress dos trabalhos malucos que eram passados – em especial, a “mamografia” (apelido carinhoso de uma monografia de um professor esquisito que possuía seios avantajados, por assim dizer).
Quando ia menos gente, o negócio era conversar sobre assuntos mais sérios enquanto tomávamos cerveja sem muita pressa.
A história mais infame a respeito do calçadão foi ainda nas primeiras vezes que comparecemos, antes mesmo da viagem para Sto. Antônio do Pinhal. Na ocasião, já alterado, fui colocar cerveja no copo e errei totalmente a dosagem do colarinho, fazendo com que meu copo tivesse mais espuma em si do que cerveja. O pessoal não perdoou e faz questão de me lembrar disso até hoje. No calor do momento, até comunidade do Orkut criaram para tirar sarro.
Do terceiro ano em diante, as idas para o calçadão se tornaram mais raras. Enquanto em 2008 eram dadas poucas brechas pra beber, no ano seguinte não tínhamos nenhum momento livre. A última vez que fui lá enquanto aluno, foi quando entregamos nosso TCC escrito, no início de novembro. Nem bebemos muito, mas aquelas cervejas tiveram um gosto especial de alívio – temporário, já que um monstro chamado “apresentação final” ainda precisava ser derrubado.
Depois de formado, apareci poucas vezes e essas foram de pura descontração, apenas para colocar o papo em dia mesmo.
O calçadão da faculdade é um lugar que eu guardo com carinho, afinal, durante os 4 anos de faculdade, o local serviu como uma espécie de desafogo dos trabalhos, mantinha-nos relaxados o suficiente para que pudéssemos refletir com calma sobre os passos seguintes assim que concluíamos uma etapa.
Viana
Esse local era um híbrido entre bar e estacionamento. Tinha duas vantagens fortes em relação ao calçadão: mesa de sinuca e cerveja mais barata. Era um lugar feio e com um aspecto bem sujo – não diria que é o local para um “encontro perfeito” com a garota que gosta.
Descobrimos o local no final de 2006 e só conseguimos usufruir de verdade em 2007. Era perfeito para ir quando as aulas acabavam mais cedo ou mesmo quando chegávamos mais cedo, pois supríamos o tempo extra jogando bilhar e tomando Itaipava. A garrafa de 600ml de Itaipava custava módicos R$ 2,50, ideal para quem queria tomar uma cervejinha a mais enquanto errávamos as tacadas na sinuca.
A nossa frequência nesse local foi encerrada abruptamente no inicio de 2008, quando tiraram a mesa de sinuca para uma suposta reforma. Ainda comparecemos mais umas 2 ou 3 vezes para tomar cerveja em churrascos que alunos de anos anteriores faziam no local. Mas como não era a mesma coisa, abandonamos de vez. A mesa de sinuca até voltou em 2009, mas como era ano de TCC, nem sequer passamos perto.
A pior coisa que aconteceu por lá foi justamente durante uma partida de sinuca, quando um amigo que já estava bêbado, errou a tacada e a bola saiu da mesa. Com uma “precisão” de dar inveja a qualquer sniper, acertou exatamente no lugar que merece ser tratado com carinho por todos. Eles riram, mas realmente doeu.
Extra-Fest
Por fim, ainda tínhamos um terceiro lugar pra beber: o estacionamento do hipermercado Extra, que ficava algumas quadras de distância da faculdade. Essa fui apenas 3 vezes, todas elas no primeiro semestre do segundo ano.
De todas as opções, essa era disparada a mais “escória” das três. Consistia em comprar uma garrafa de vodka, outra de Pepsi, misturar e beber. Simples, mas letal, já que voltávamos pra faculdade completamente bêbados.
Conclusão
Não fui um santo na época da faculdade, especialmente levando em consideração a idade que eu tinha quando entrei. Mas na medida que as responsabilidades aumentavam, esse tipo de coisa era colocado em segundo plano até cair no esquecimento.
Graças a Deus consegui dosar tudo isso pra poder estar aqui hoje contando essas histórias de guerra que fizeram parte da minha vida e que os amigos que estavam presente na ocasião vão sempre lembrar pra queimar meu filme com alguém.
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